Devolvam Cuba a Élian - Ricardo Prochet
Ricardo Prochet
A notícia que mais tem chamado a atenção durante a tranquilidade aparente que subitamente tomou conta do mundo com a chegada do ano novo é a questão do menino cubano Élian. Ele, que depois de quase ser devorado por ferozes tubarões, perder sua querida mãe, provavelmente cansada da dura rotina cotidiana de um paraíso insular que impossibilita qualquer ação concreta para melhoria da extrema pobreza que a revolução impôs a todos, e ainda seu padrasto que, suponho, tendo tentado em vão oferecer uma vida melhor aos envolvidos na macabra história, embarcou na vã esperança de atingir os Estados Unidos e seu menor índice de desemprego dos últimos tempos.
Depois desse relato de contornos e nuances que acreditávamos existir somente no mundo de ficção das novelas produzidas pela televisão brasileira, vamos embarcar num relato histórico que convida a uma reflexão sobre as teses revolucionárias e a necessidade de defesa das ameaças desse tipo.
Em sua época, a Guerrilha Revolucionária Cubana encontrou o país com gritantes desníveis sociais; mau estado sanitário do povo; economia pouco saudável e dependente das flutuações de mercado de um só produto e violento antiamericanismo, compreensível por causa das frequentes e recentes intervenções dos Estados Unidos na vida política do país, isso para não mencionar a corrupção generalizada.
A revolução cubana começou com um movimento ou guerra insurrecional visando a ditadura corrupta de Batista; não tinha, pois, aparentemente, inspiração ideológica do tipo marxista-lenista.
No sistema socialista marxista, a liberdade de iniciativa e de trabalho não existe da maneira como é entendida no sistema capitalista; uma vez que a planificação é global e coercitiva determinando tudo às entidades econômicas. As decisões são centralizadas no Estado, que assegura assim o atingimento dos objetivos por ele fixados, atendendo ou não aos anseios e aos interesses dos indivíduos.
O marxismo padece de várias incoerências, isto é, dos mesmos males que seu criador imputara à burguesia e ao capitalismo e podemos facilmente adicionar mais dois, frutos de uma rápida reflexão.
Em primeiro lugar, a que decorre da tese marxista de que o modo de produção condiciona o processo da consciência coletiva, ou por outras palavras, o fator econômico condiciona todo o processo social. Seria o primado do econômico sobre os demais fatores.
Ora, com isso, o marxismo simplesmente põe de lado outras forças sociais que podem condicionar ou influenciar o fenômeno político, como a história o demonstra, a religião, a cultura, a vocação de um povo etc. Subestimar ou ignorar essas forças é uma das grandes contradições do marxismo.
A segunda incoerência reside na interrupção brusca do processo contido no materialismo histórico. Prevê este a sucessão contínua de lutas de classes, com predomínio de uma sobre outras até que, superada a essa fase com a vitória do operariado, o processo interromper-se-ia. Sustentam, pois, os marxistas, que a luta de classes chegaria então a um momento em que a classe explorada e vencida, o proletariado, ao libertar-se da classe opressora, a burguesia, libertaria para todo o sempre da opressão a sociedade inteira.
Voltando ao caso cubano, os próprios comunistas, inicialmente foram contrários ao movimento revolucionário e apoiaram o governo, tachando o movimento de burguês e golpista; porém, quando visualizaram possibilidade de vitória, adotaram a tática da dualidade dividindo-se estrategicamente: uma ala combatendo o ditador Fulgêncio Batista, na Sierra Maestra, e outra empenhada em fazer fracassar os movimentos grevistas determinados por Castro na cidade.
O país do pequenino Élian González, a quem até o presente momento não se perguntou o que deseja para seus dias vindouros, necessita urgentemente rever seus conceitos e adotar o mais rápido possível uma nova doutrina que vise ao bem comum de seu povo, que estabeleça o justo e perfeito equilíbrio entre o material e o espiritual; que ao homem devolva os elementos essenciais à vida; que o liberte da ignorância, da desigualdade social e política; que, em última análise, baseada no amor e na verdade, na justiça e na igualdade, torne realidade o respeito à pessoa humana, destrua o Mal e eleve o Bem, devolvendo ao menino Élian e a todo o povo cubano uma pátria com elevada escala de valores positivos.





