Deuses sem alma - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de maio de 1999
Gaudêncio Torquato 
As imagens dos governos são extensões da identidade dos governantes e retratam a cara de seu tempo. O trabalhismo era a fotografia de Getúlio. O desenvolvimentismo tinha as feições sorridentes de Kubitschek. O janguismo assumia os contornos do esquerdismo oportunista de João Goulart. O janismo, por sua vez, juntava regrismo autoritário com independência, que era a marca de Jânio. O ciclo dos militares fechou o universo da locução, maltratou a cidadania e abriu comportas para grandes projetos. Um populismo tateante, de altos e baixos, acabou ofuscando a liturgia de Sarney. O governo Collor foi um estrondoso, marcado por grandes sustos, marketing pessoal, abertura da economia e escândalos. E a cara do atual governo? Dá medo: tem o formato de um monstro de ferro e aço, despolitizado e desideologizado, talhado por uma engrenagem burocrática de fazer inveja a George Orwell.
O Brasil de Fernando Henrique é dominado por uma cultura calibrada pelo tecnicismo. O poder está nas mãos de um triângulo formado por políticos, administração burocrática e grupos de negócios. O bacharelismo, que a partir do pós-guerra, oxigenava os fluxos da política, empunhando o facho da liberdade, do direito e da justiça, cedeu lugar ao economicismo, com suas regras sobre planificação e regulação monetária. A ditadura da globalização e do FMI estiola a criatividade social. Os comportamentos se mimetizam, os gostos se unificam e até as artes se repetem na redundância de ritmos musicais pobres e requebros anatômicos voltados para a celebração das regiões glúteas. Uma absurda modernidade que subjuga a cultura da mente à modelagem do corpo. A música tecno faz ecoar a alienação de uma juventude desmobilizada politicamente e retocada pelo visual dos shopping centers.
É o fim da idade heróica do humanismo. É o começo do grande encontro com uma civilização cibernética, informatizada, fria e farta de alimentos virtuais. Não há como atrasar o ritmo da história, pregam os integrados. Mas o Brasil ainda não chegou nem perto do protótipo da civilização consumista, representada pelos Estados Unidos. Que lá, a robotização impregne os sentidos, tudo bem. Mas, aqui, não devemos deixar escapar as emoções e um jeito todo especial que faz do povo brasileiro uma gente alegre e cordial. O povo está ficando triste. O Carnaval tradicional é um desfile de fantasias e os carnavais fora de época já não conseguem tanta animação. O índice nacional de felicidade líquida está sendo massacrado pelo índice nacional de violências brutas. Violência contra velhos, assacados em suas parcas aposentadorias; contra crianças e adolescentes; contra as classes médias, que empobrecem; contra as classes populares, que temem ver esvaziada a cesta básica.
Mais uma vez, vale ressaltar: o Brasil avançou no caminho da modernização, do Plano Real em diante, das reformas constitucionais e do programa de privatização. Mas está esfacelado na área do atendimento social. Jamais se imaginou que o humanismo - eixo de tantos programas e heróis do passado - fosse banido por um sociólogo, para quem o ideal social deve ser a convivialidade, ou seja, uma sociedade a serviço do homem, e não um planejamento técnico-burocrático, onde o sacrifício faz parte da lei do calvário dos miseráveis.
Uma das deformações de governantes reeleitos é a impermeabilidade à temperatura social. Muito tempo no poder acostuma o governante a ver as coisas pelos olhos de bajuladores, políticos fisiológicos e frios burocratas. Mais que inexpugnáveis, perdem o senso da realidade. Assemelham-se a José, aquele que está no fundo de um poço, acreditando que, usando inteligência e força, sairá logo de lá. Passa o dia tentando. Obcecado pela idéia de escapar, já não vê mais nada, nem a corda jogada por alguém que por ali passa. José está surdo e segue trabalhando. A pessoa grita: Pegue a corda e saia. José responde irritado: Não vê que estou trabalhando? Não quero a sua corda.
Governantes também padecem da síndrome dos heróis. Consideram-se acima do bem e do mal, chefes providenciais, gênios da raça. Quando o distanciamento da realidade chega ao absurdo, caem como folhas mortas do outono. Veja-se Raúl Cubas, do Paraguai, que foi acolhido entre nós como asilado. Considerava-se invulnerável. Hoje, é apenas um demônio, categoria que Platão, no Crátilo, acrescentou aos deuses, aos heróis e aos homens, distinguidos por Píndaro, nas Olímpicas.
Há quem veja na cara do governo Fernando Henrique traços demoníacos. Seria mais adequado colocá-lo na galeria dos deuses sem alma, para os quais foi feita a parábola: Não vê que não vê, não sabe que não sabe.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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