Deuses e demônios povoam o Trading Card Games
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
De longe, parece um jogo de baralho. Olhando de perto, as cartas são diferentes, com figuras de anjos, demônios e monstros. Os jogadores, crianças e adolescentes, parecem falar uma língua desconhecida. As cartas são chamadas cards e compradas num booster (pacote de 15 cartas) que formam um deck (baralho de 60 cartas). O jogo é complicado. Cada personagem desempenha um papel, tem características próprias e um tipo de arma (que eles chamam de força). Usando magia, feitiçaria e poderes sobrenaturais, além de estratégia e planejamento, os jogadores encenam a eterna luta do bem contra o mal. São os TCG, Trading Card Game, a nova mania da garotada.
Há vários jogos de TCG mas os mais comuns são o Magic, Pokemon e o Yu Gi Oh. O Magic é o preferido dos adolescentes. Criado há 9 anos por um professor de matemática, o jogo tem mais de 5 mil cartas e adeptos no mundo todo. A ''febre'' do momento é o Yu Gi Oh, o mais caro e também o que tem as figuras mais sombrias: ''Pale Beast'' (Besta Pálida), ''Headless Knight'' (Cavaleiro sem Cabeça), ''Invitation to a dark sleep'' (Convite para um sono profundo), são algumas. O jogo faz o maior sucesso entre as crianças impulsionado pelo desenho que está na televisão há alguns meses. A história tem um forte componente espiritual. Yugi é um menino tímido que desvenda um antigo quebra-cabeças egípcio, libertando o espírito de um poderoso rei. A recompensa de Yugi é incorporar esse espírito para poder jogar o Duelo de Monstros até se tornar o Rei dos Duelistas.
Não são só as figuras que assustam; o preço também. Para começar a jogar é preciso ter um deck que custa de R$ 80,00 a R$ 100,00. As cartas podem ser compradas separadamente e algumas custam mais de R$ 100,00. Paulo Henrique Ferreira, 18 anos, campeão londrinense, guarda com cuidado uma carta do Yu Gi Oh que vale R$ 115,00, mas diz que não gasta muito com o jogo: ''O gasto maior é na hora de comprar o deck. Atualmente eu gasto uma média de R$ 10,00 por mês'', afirma. O valor da carta é determinado pelo benefício que ela traz no jogo. A carta mais cara é a Black Lotus, do Magic, avaliada em US$ 400. ''É muita rara e só fica na mão de colecionadores. Aqui em Londrina ninguém tem'', garante Leozita Baggio, dona da BatBanca. A justificativa do preço é que todos os jogos são importados.
Sempre atentos à novas possibilidades de lucro fácil, os falsificadores perceberam um mercado novo e já entraram em ação. Cartas e baralhos ''piratas'' podem ser comprados em praticamente todos os boxes do Camelódromo e até um bancas da cidade. Os preços dos decks ''made in China'' variam de R$ 12,00 a R$ 20,00 mas a falsificação é evidente. No caso do Yu Gi Oh, a única vantagem, além do preço, é que as cartas falsificadas têm legendas em português. No entanto, estão proibidas nos torneios e campeonatos oficiais.
Os cards são o passatempo preferido dos amigos José Carlos Marinelo Filho e Leonardo Cortez Abbundanza, ambos de 13 anos: '' É legal porque tem muita estratégia, a gente tem que pensar bastante prá jogar'', explica José Carlos. Ele conta que controla os gastos com o jogo mas confessa que a diversão pode virar vício: ''Conheço gente que não pensa em outra coisa e só quer brincar disso. O jogo também pode custar caro se a pessoa quiser comprar todas as cartas novas que são lançadas'', admite.
Nenhum deles se preocupa muito com o caráter sombrio dos personagens: ''Tudo tem uma explicação lógica ou científica. Eu não acredito em mágica nem feitiçaria, isso é só um jogo'', pondera Leonardo. O colégio onde os dois estudam, o Maxi, permite o jogo fora da sala de aula. Outras escolas, como o Marista, proibiram a brincadeira.
A diretora educacional Marize Rufino justifica: ''Começamos a ter brigas demais, algumas até físicas, por causa das cartas. Não foi um caso isolado, por isso resolvemos proibir. A gente não estimula nada que gere conflito entre os alunos e esses jogos, infelizmente, geram muito conflito''.
A dona da BatBanca, que promove campeonatos todo fim de semana, discorda: ''Há mais de 6 anos os meninos jogam aqui e eu nunca vi brigas nem nenhum comportamente violento'', garante Leozita. Para o estudante Paulo Henrique, os cards ajudam a fazer amigos: ''A gente cria um vínculo muito legal com os parceiros e também conhece gente nova nos torneios e campeonatos''.


