Alterar a consciência para experimentar sensações prazerosas, entrar em contato com forças místicas ou simplesmente para fugir da realidade sempre despertaram o interesse dos povos através dos tempos. Antropólogos asseguram que não existe sociedade sem drogas e que é impossível entender a cultura de um povo sem conhecer as drogas que ele usa. Cultura e religiosidade se misturam nessa seara. Lembremos, por exemplo, de Dioniso, o Deus do Vinho na mitologia grega, a quem eram dedicadas longas noitadas de bebedeiras em agradecimento pelas boas colheitas. Os romanos incorporaram parte dessa cultura, e rebatizaram Dioniso de Baco, nome que deu origem à palavra bacanal. Basta esse termo para imaginarmos o que rolava nos festejos dedicados a esse "ser divino".

Nas festas de Inti Raymi, a Festa do Deus Sol, o Sapa Inca, o soberano, mascava as folhas da coca e as distribuía aos participantes. Aliás, a coca servia praticamente para todas as ocasiões, desde casamentos, nascimento de um bebê e até ritos funerais. No Rig Vedas, na coleção de cânticos sagrados chamados Upanishades, escritos há pelo menos 10 mil anos na Índia, existem 114 versos que fazem referências ao Soma, uma bebida sagrada usada para promover a elevação espiritual. A planta Soma, de cujas folhas se extraía o sumo sagrado, seria a personificação do Deus dos deuses.

Na Bíblia, do antigo ao Novo Testamento, encontramos várias referências ao uso de bebidas alcoólicas, bem como alertas de que usadas em excesso poderiam trazer a perdição, possivelmente alarmados com os problemas enfrentados na cultura egípcia, onde a embriaguez era incentivada nos festejos para demonstrar a alegria e a gratidão a quem os realizava. Óbvio que os problemas eram proporcionais.

Documentos datados entre os séculos XIV e XVI relatam a existência de práticas atribuídas às supostas bruxas que preparavam um unguento através do cozimento de plantas alucinógenas com adição de gordura de animais. Com esse preparado, besuntavam um bastão em formato de cabo de vassoura para introdução do produto por via anal, com o intuito de evitar seus efeitos colaterais e assim se deleitavam com longas horas de viagens inimagináveis. Eis aí a origem da lenda das bruxas voando em vassouras.

Na sociedade moderna, longe dos ritos mágicos/religiosos as drogas continuam presentes, cada vez mais elaboradas e puras, restando-nos conviver com suas ameaças ao bem-estar social enquanto educadores e agentes sociais pelejam para reduzir a demanda do uso através de campanhas educativas em escolas e alguns outros canais.

A repressão demonstrou não ser eficaz, ao contrário, profissionalizou o tráfico, fomentou a formação de cartéis e facções, tornando-o um negócio altamente rentável e inacessível às autoridades.

Urge, portanto, que nossos "exorcistas parlamentares" e os "magos" dos tribunais superiores revejam as práticas legais acerca dessa questão, considerando que a dinâmica das relações humanas se transformou desde a primeira Convenção do Ópio, realizada em Haia, no ano de 1912, que estabeleceu medidas repressivas para o controle das drogas, as quais o tempo demonstrou serem inócuas.

Hoje temos "fantasmas traficantes", ocultos pelas "trevas das redes virtuais" e "alquimistas pós-modernos", jovens estudantes talentosos, que produzem substâncias químicas nas cozinhas de suas quitinetes e as vendem nas salas das universidades.

Enfim, se não vencermos o conservadorismo e não aceitarmos os novos paradigmas do comportamento humano que sobrepujam às leis ortodoxas, resta-nos implorar à Divina Providência, pois os demônios continuarão soltos.

JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico e pós-graduado em Segurança Pública em Londrina

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