Já se disse que Deus é brasileiro e isso lembra a divindade antropomórfica da tradição judaico-cristã, aquele Pai rigoroso sempre de olho nos pecados humanos e pronto para castigar com o fogo eterno do inferno os filhos que descumprirem suas ordens. Como disse Voltaire, ‘‘se Deus nos criou à sua imagem e semelhança, nós o retribuímos’’ e, assim, o Deus colérico do Antigo Testamento volta e meia nos atemoriza com Suas características bastante humanas.
Mas se Ele é brasileiro, e nesse caso deve ser baiano, está na hora de pedirmos que nos acuda mais uma vez, lembrando que não nos tem faltado motivo para suplicar pelas ajudas celestiais ao longo de nossa trajetória por esse vale de lágrimas. Provavelmente, Ele acenará com o livre-arbítrio, álibi divino perfeito a significar que a causa das causas não tem nada a ver com nossos erros, e que teremos de nos virar dentro das circunstâncias as quais, por sinal, atualmente andam acinzentadas, com tendência para ficarem pretas de vez. E isso faz lembrar também o hinduísmo com sua fantástica formulação do carma, lógica e racional.
O carma como lei de causa e efeito, ensina que a toda ação corresponde uma reação que produz um resultado. A ciência utiliza a idéia do carma. Hegel, na sua tríade dialética composta de tese, antítese e síntese, ou seja, afirmação, negação e negação da negação, expôs de forma complicada a lei do carma. Aliás, ao escrever sobre dialética o filósofo alemão disse: ‘‘No princípio Deus e eu entendíamos; no fim só Deus.’’ Talvez por isso Karl Marx tenha copiado tão mal a tríade dialética onde a afirmação era a burguesia, a antítese o proletariado e a síntese a sociedade sem classes que nunca aconteceu nem acontecerá.
De todo modo, é bom que nós brasileiros prestemos mais atenção no livre-arbítrio e na lei do carma quando formos escolher nosso próximo presidente. Escolha nada fácil com os pré-presidenciáveis que já rondam o cenário eleitoral do ano que vem. E o problema é que com a crise da Argentina piorando, o que afeta as frágeis economias dos países emergentes (eufemismo politicamente correto para designar subdesenvolvimento), entre eles o Brasil, os candidatos que já se posicionam para a corrida do poder são um agravante que colabora para maior deteriorização da situação, pois não existe entre eles nenhum capaz de inspirar confiança ao mundo globalizado.
Alías, ao ver a fila de presidenciáveis – com exceção do bochechudo Garotinho que parece novidade, apesar de manter os mesmo velhos vícios populistas – os demais são tão requentados que a pergunta que ocorre é a seguinte: por que não há renovação política no Brasil? Estamos como as músicas mexicanas que nunca mudam, e que são entoadas por aqueles bigodudos de sombrero a cantar eternamente: ‘‘Cucurrucucu, Palomaaaaaaa’’.
Vivemos, pois, em clima de reprise. No tempo dos generais presidentes, dizia-se que era o governo deles que impedia a formação de novas lideranças. Mas, e agora, tantos anos passados, por que somos obrigados a ver o desfile de conhecidas figuras, a repetirem o mesmo discurso engolido com a mesma facilidade pelo povo?
Sem dúvida, a resposta requer a compreensão do nosso tipo de cultura forjada pela cruz católica e pela espada lusitana, que até hoje ajuda a perpetuar uma mentalidade baseada em valores, comportamentos e atitudes terceiro-mundistas, avessa ao progresso e difícil de ser alterada em termos da maioria.
Depois, há aquela propensão universal que o ser humano tem à credulidade, com seu corolário que pode ser ilustrado com o refrão do sambinha: ‘‘Me engana que eu gosto’’. Aliado a isso, considere-se o desconhecimento total dos bastidores do poder por parte do povo, o que resulta na superficialidade dos julgamentos. Acrescente-se o fato de que a massa se encanta e se ilude facilmente a partir de sua paixão pela política. Sim, porque se todos dizem não tolerar políticos, são apaixonados pela política, esse jogo do poder no qual, geralmente, quando se ganha, se perde.
Para coroar tudo ainda existe a burrice universal, tão bem descrita por Arnaldo Jabor em ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de terça-feira passada, que ajuda a explicar o como e o porquê de muitas de nossas escolhas políticas: ‘‘Na burrice é sim e não. Na burrice, não há dúvidas. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice não tem fraturas. A burrice alivia – o erro é sempre do outro. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice até dá mais dinheiro; é mais comercial.’’
Paralelamente à burrice, existe o que Ortega y Gasset denominou de ‘‘aristofobia’’, ou medo aos melhores. No nosso caso, além da aristofobia, que nos faz de fato detestar os melhores e mais inteligentes, somos uma babacocracia. Todo poder aos babacas, diremos nas eleições vindouras. E aí faremos nossa escolha entre Lula o ‘‘soft’’, Itamar Franco, Ciro Gomes, Anthony Garotinho e por aí vai. Será que Brizola e Enéas darão também o ar de sua graça? Será que não aparecerá nada de novo? Mas de novo mesmo; sem achaques nacionalisteiros; discursos antiliberais para posar de esquerda; falsas promessa e um programa concreto, objetivo e prático de governo, que possa levar o País a um destino melhor. Possivelmente, um príncipe tão completo assim não exista. Em todo caso, seria necessário que pelo menos não fosse babaca, pois as coisas não andam boas.
Claro que não se precisa partir para o catastrofismo, apesar de tudo. Inclusive, é bem capaz que nas férias de fim de ano os argentinos em crise venham, como sempre vieram, para curtir as praias de Santa Catarina. E os brasileiros partam em busca dos caros balneários do Nordeste, procurando se distraírem de nossa própria crise.
Em todo caso, é melhor pensarmos bem na lei do carma enquanto apreciamos os candidatáveis. Depois que fizermos a escolha não adianta pedir a Deus que nos acuda, mesmo que ele seja brasileiro.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é professora universitária
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