Deus em seu devido lugar
Deus em seu devido lugar
Gaudêncio Torquato
O marechal Idi Amin Dada, ex-todo poderoso de Uganda, vivia dizendo que conversava com Deus para cumprir fielmente seus mandamentos. Um dia, indagado por um jornalista se tais conversinhas ocorriam com muita frequência, o cara-de-pau não teve papas na língua e soltou: Só quando necessário. A verve do ex-cabo que se transformou em ditador faz escola pelo mundo. No Brasil, o discurso dadadiano pontifica na época de campanha eleitoral, como a que estamos iniciando. Passeando numa feira com um candidato a prefeito de São Paulo, um jornalista, ao ver um galo, perguntou-lhe, de repente, se seria capaz de fazer o galo cantar, caso eleito. A resposta veio de pronto: É claro.
Quem tem poderes para fazer um galo cantar usa muito o gogó, ou para imitar o som da ave (funcionando como ventríloquo ou companheiro de galinheiro) ou para driblar a verdade, que é coisa muito comum nesses tempos de laçar o eleitor. Se a resposta fosse apenas uma boutade, entraria como mais uma pérola do folclore político. Mas a mentira repetida seguida vezes por um político tem o dom de fazer com que os ouvintes a tomem como verdadeira. Mais que isso: o próprio político, de tanto mentir para os outros, passa, ele próprio, a acreditar no que diz. Esse mecanismo, que mexe com a maquinaria psíquica, foi utilizado por Hitler e estudado por muitos cientistas. A arte da mentira é uma obra da engenharia eleitoral.
A política, sabe-se, é um exercício de sedução. Para seduzir os eleitores, há candidatos que tomam o assento dos heróis, vestem um manto divino para projetar uma aura de onipotência. O que oferece o herói? Segurança, certeza, tranquilidade, harmonia. A imagem é particularmente apropriada para esses tempos bárbaros de alta criminalidade. Procura-se acentuar a excepcionalidade do perfil de candidatos, atribuindo-lhes a capacidade de provedor de sonhos, de operador de utopias. E não é raro constatar a força do apelo demagógico desses deuses de plantão, que violando a vontade das multidões, por meio de subtefúrgios, adjetivos, exclamações peremptórias, conseguem pronta adesão à tirania de seu discurso.
É triste ver contingentes de pessoas de boa vontade, carentes e dóceis, cheias de ternura e afeto, inocentes e éticas, irem ao encontro dos paladinos de promessas mirabolantes, por verem neles a chave para lhes abrir a porta da fortuna e do bem-estar. Saint-Just, um dos jacobinos da Revolução Francesa, expressando sua desilusão com a política, disse: Todas as artes produziram maravilhas, exceto a arte da política que só tem produzido monstros.
Exageros à parte pois há quadros decentes e honestos o grande formulador traçou o perfil de uma classe de políticos, conhecidos pela capacidade de se esconder na hipocrisia do crocodilo, o bicho que, chorando, atrai a presa para devorá-la. Esse tipo de gente tem atrasado o ritmo das mudanças da humanidade.
Aproveitando-se da descrença do povo nas instituições, os políticos hipócritas fazem da política um espetáculo, personalizam o poder e, com retoques cosméticos, transformam-se em figuras mediagênicas, que sabem extrair o máximo proveito dos meios de comunicação. Tergiversam, contam a verdade pela metade, omitem fatos, acrescentam dados, procuram ridicularizar adversários para encobrir sua montanha de defeitos, buscam de todas as formas abrir espaços de simpatia social, às vezes cometendo asneiras e procurando esquecer o leito em que dormiram ou o berço que os gerou.
O Brasil quer uma campanha cidadã. Séria, amparada em idéias, em projetos factíveis. Que não privilegie o vedetismo, a demagogia, a personalização da política. Há milhares de jovens que vão votar pela primeira vez. Há milhares de velhinhos que vão votar pela última vez. Há milhões de adultos que estão saturados das velhas palavras.
O momento é de alerta. Como Zaratustra, precisamos de uma nova linguagem. Recolhido na montanha e à solidão de sua caverna, Zaratustra acordou, certa manhã, de um sonho, e ao se olhar no espelho trazido por um menino, deu um grito e seu coração ficou alvoroçado, quando constatou o que via: a cara feia e o riso escarninho do diabo. Decidiu agir. Sentia que sua doutrina corria perigo. O joio queria chamar-se trigo. Inimigos poderosos haviam desfigurado seu ideário. Decidiu partir para reconstruir tudo de novo. E correu a precipitar suas palavras para além dos vales, dizendo: Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga: cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas. (Friedrich W. Nietzsche in Assim falou Zaratustra).
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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