DEU BRANCO Esquecer é normal e saudável
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sábado, 09 de outubro de 2010
Érika Gonçalves<br> Reportagem Local 
Sair de casa e esquecer o celular. Não se lembrar do nome de alguém a quem foi apresentado poucos minutos antes. Com o passar do tempo, a memória prodigiosa de criança vai se perdendo e as reclamações sobre os esquecimentos se tornam rotina. Com o passar da idade, o esquecimento vai ficando cada vez mais acentuado.
O neurologista Ivan Izquierdo, coordenador do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e autor do livro ''A arte de esquecer'', alerta, no entanto, que o esquecimento é saudável para o cérebro. ''Se não esquecermos a quantidade imensa de coisas que adquirimos constantemente, não temos, literalmente, espaço para adquirir novas memórias'', alerta.
Por que quando crianças temos uma memória prodigiosa e conforme a idade vai aumentando vamos nos esquecendo das coisas?
É a fisiologia da memória. Quando a gente é criança, temos a mente mais fresca, não temos nada dentro. E quando criança, gravamos as coisas da mesma maneira que os animais. Quando passamos dos 4, 5 anos de idade, começamos a traduzir tudo para uma língua e guardamos a tradução. Isso permite uma memória mais refinada, com mais detalhes, mas a gravação é menos direta. Por isso não nos lembramos de coisas anteriores à aquisição da linguagem, porque são gravadas em outros códigos, aos quais não temos mais acesso. E depois temos menos espaço, menos células disponíveis.
O esquecimento é tão necessário quanto o lembrar?
Não sei se é tão necessário, mas é muito necessário. Se não esquecermos a quantidade imensa de coisas que adquirimos constantemente, não temos, literalmente, espaço para adquirir novas memórias. Isto tem sido comprovado em animais. Para adquirir ou para evocar qualquer tipo de memória a gente usa uma parcela muito alta de células de certas regiões cerebrais e de um sistema molecular. O sistema molecular se gasta e é necessário esperar um tempo para que ele se reponha e se ponha novamente em condições de funcionar. Por isso existem recreios, intervalos, para dar um tempo de reposição para que o cérebro se ponha novamente em condições de aprender.
Como o cérebro decide o que deve ser guardado?
O cérebro tem vários sistemas para isso. Um deles é a memória de trabalho ou gerenciador de informações. Isso está localizado no córtex pré-frontal, na região da testa, e processa informação que ocorre em sucessão ou ao mesmo tempo. Isso é para evitar a sobrecarga. Quando (o cérebro) está sobrecarregado, manda um aviso para parar. Aí a gente se distrai, olha para outra coisa. O sistema funciona muito bem, tanto é que temos aguentado no último século o aumento crescente de informação.
Qual é a causa do famoso ''branco''?
O ''branco'' é uma besteira. Se deve ao estresse ou ansiedade. No momento que se inicia a ansiedade, as glândulas suprarrenais produzem corticoides, popularmente chamado cortisona. Esses atuam sobre o núcleo da amígdala, mandam inibir a evocação da memória e aí temos o branco.
Esse corticoide é o mesmo medicamento que tomamos? Ele afeta a memória?
O cortisol ou algum análogo pode inibir, sim, em determinadas circunstâncias. Mas nós o tomamos porque está faltando esse hormônio.
Temos memória seletiva? Por exemplo, os homens sempre se lembram da escalação do futebol, mas, em geral, esquecem datas importantes. Por quê?
É assim realmente. Eu acho que as mulheres têm melhor memória que os homens. A memória é seletiva, mas para qualquer um. Para cada profissão, para as crianças, para o cachorro, para o gato. É de acordo com o interesse de cada um, como espécie ou como indivíduo.
Quanto a atenção é importante para a memória?
Muitíssimo. Sem atenção não há memória. Tem que prestar atenção para poder aprender ou evocar algo.
A partir de que estágio o esquecimento passa a ser preocupante?
Tem que partir da base de que depois dos 40 a memória declina, lentamente e de forma que não se nota muito. O declínio é relativo, declina para algumas coisas e aumenta para outras. Por exemplo, de certa forma, a memória de uma pessoa de 70 ou 80 anos que se manteve ativa intelectualmente poderá ser maior do que a da mesma pessoa quando ela tinha 40 anos e foi simplesmente acumulando coisas, sem esforço, sem estresse e guardou. Contudo se nota algum declínio, principalmente na velocidade com que as memórias são evocadas.
Como saber que o esquecimento pode estar relacionado a doenças como o Alzheimer?
Isso é um dos grandes dramas da especialidade. Quando se trata de algumas coisas como ''onde será que deixei a chave ou o documento?'', isso acontece com todos, o tempo todo. Mas quando se vê o rosto de uma pessoa e tem que se lembrar quem é, porque é um filho ou o chefe e não se lembra, isso é para consultar um neurologista.
Quais as dicas para ter uma memória saudável?
O melhor é exercitá-la o mais possível, usá-la. O melhor instrumento que temos para usar a memória é a leitura, porque quando lemos exercitamos ao mesmo tempo muitas variedades de memória: de letras, de palavras, de línguas, de objetos, de pessoas e a memória visual. A prova disso é que as duas profissões nas quais se mantém a memória na idade avançada são as que requerem a leitura: ator e professor.


