Em artigo no ‘‘The Washington Post’’, publicado semana passada, o professor americano Lawrence Harrison, do Centro de Estudos Internacionais, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, dá mais alguns tiros de misericórdia na Teoria da Dependência, de grande aceitação nos meios acadêmicos latino-americanos nas décadas de 70 e 80.
O presidente Fernando Henrique, um dos maiores teóricos da tal teoria, expressa no seu livro ‘‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina’’, é invocado como exemplo de alguém que se reciclou a tempo. A teoria dizia que o atraso da América Latina estava diretamente vinculado a políticas imperialistas emanadas do Norte.
A partir dessa premissa, os Estados Unidos consolidavam-se, na visão acadêmica, no papel de vilões da miséria continental, e o socialismo surgia como a hipótese por excelência de libertação. A teoria já não tem muitos adeptos ilustres e o professor Harrison, que sempre a condenou, aproveita para sapatear sobre seus escombros. Diz que a fonte do atraso latino-americano não é econômica ou política: é cultural.
A cultura ibérica, patrimonialista, privilegia o indivíduo e a família, em detrimento de um senso mais amplo de comunidade. É, pois, segundo ele, a fonte do atraso. O latino-americano não cultua valores como trabalho, educação, parcimônia, mérito, comunidade e ‘jogo limpo’. A América Latina exprime a ética católica, reacionária, enquanto os Estados Unidos exprimem a protestante, progressista. Max Weber, guru de Fernando Henrique, já escreveu sobre o assunto.
O ponto central do artigo do professor é exatamente este: a cultura, e não a política ou a economia, é a causa principal do subdesenvolvimento da América Latina. Dentro dessa visão, considera que os programas de ajuste estrutural ordenados pelo Banco Mundial, por mais úteis que sejam, não bastam para garantir uma economia saudável.
É preciso algo mais: um ajuste cultural, segundo o professor. É ele quem pergunta: ‘‘Por que os líderes da América Latina insistem em escolher más políticas? Por que instituições latino-americanas - Judiciário e polícia, por exemplo - são quase sempre fracas e corruptas?’’
Alexis de Tocqueville, pensador do século passado, citado pelo professor, escreveu que não se pode esperar que políticas e instituições democrático-capitalistas funcionem se os valores do povo que opera dentro dessas instituições não forem inerentes a elas.
Sua conclusão: ‘‘O verdadeiro progresso na América Latina depende do fortalecimento dos valores que estão por trás do sucesso das democracias evoluídas’’. Uma boa reflexão para um governo apoiado por PFL, PTB, PMDB etc, envolvido num projeto obsessivo de reeleição.

mockup