Desrespeito às mulheres
Em meio a uma sessão extensa da Assembleia Legislativa (AL), anteontem, com muitos discursos acalorados, uma cena lamentável chamou atenção. O presidente da Casa, Ademar Traiano (PSDB) mandou uma das professoras que protestava nas galerias "calar a boca". Ela se posicionava contra discurso do deputado Pastor Gilson de Souza (PSC) durante a votação do Plano Estadual de Educação (PEE) e o chamou de ignorante. Em seu discurso, Souza afirmou que a "ideologia de gênero" seria incentivo à homossexualidade. O presidente da Assembleia pode usar de sua autoridade para pedir silêncio, porém, mandar a professora calar a boca extrapolou questões de educação e é impossível desvincular a afirmação de uma conotação machista.
Não é a primeira vez que a AL protagoniza uma cena agressiva contra mulheres. No ano passado, o então presidente da AL, Valdir Rossini, também do PSDB, se referiu com grosseria para uma sindicalista que criticava a criação da Fundação Estatal de Atenção em Saúde. Rossoni, que agora ocupa uma cadeira na Câmara Federal, disparou contra a servidora pública dizendo que ela era "nervosinha" e que as pessoas poderiam imaginar o que ela fazia com o marido em casa.
Em maio deste ano, até a presidente Dilma Rousseff (PT) saiu em defesa, no twitter, da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Depois de um bate-boca entre ela e o deputado Roberto Freire (PPS-SP), a parlamentar ouviu a seguinte frase do colega Alberto Fraga (DEM-DF): "Mulher que participa da política e bate como homem, tem que apanhar como homem também". A declaração do democrata se referia a um puxão que Freire deu no braço de Jandira e pela qual ele pediu desculpas depois.
Sem contar outra declaração agressiva que partiu do deputado federal Jair Bolsonaro (sem partido - RJ). Em uma discussão com outra parlamentar, Maria do Rosário (PT-RS), Bolsonaro disse que não a estuprava porque ela não merecia. O leitor pode até lembrar que situações como essas são pontuais e não acontecem com frequência. Mas quando acontecem, essas declarações deixam claro o perfil patriarcal, com a preponderância do homem na organização política brasileira. Um exemplo disso é a presença muito pequena das mulheres na Câmara dos Deputados - menos de 10% do total -, e da decisão recente da Casa em rejeitar emenda apresentada pela bancada feminina que garantia percentual de vagas no Legislativo para as mulheres.





