No Brasil, há um enorme desprezo pela exatidão dos números. Nossa população está na casa dos 150 milhões de habitantes, mas pode ser de 170 milhões, e não há quem se candidate a desmentir essa informação. O PIB parece variar entre R$ 500 bilhões e R$ 800 bilhões, como se a diferença entre esses valores não fosse a quantia astronômica de R$ 300 bilhões. Já a dívida pública interna pode ser de R$ 120 bilhões ou R$ 180 bilhões, dependendo do interlocutor. As reservas cambiais seriam de cerca de US$ 60 bilhões, porém, se forem considerados os créditos voláteis, chegam apenas à metade desse valor. Os orçamentos públicos são obras de ficção, já que nunca são executados conforme o previsto, e o Tesouro Nacional pode apresentar um déficit de R$ 1,5 bilhão num único mês, sem que jornal algum estampe essa informação numa manchete. O que fazem as autoridades com mais de 31% do PIB arrecadado como impostos é mistério para os brasileiros que, aliás, nunca souberam também de quanto é o tal rombo da Previdência, um fantasma de enormes proporções que nos persegue há anos.
Vivemos numa anarquia contábil. No Tribunal de Contas da União existe apenas um auditor para verificar a correta aplicação de recursos públicos de centenas de bilhões de reais. Não há economia de mercado capaz de resistir a esse fluxo tão confuso de informações como, por essa mesma razão, não pode haver credibilidade nelas.
Um americano ou um europeu se escandalizariam com a falta de cuidado que o brasileiro em geral dispensa às suas contas. Na Inglaterra, a certificação de contador é entregue pela rainha. Nos Estados Unidos, o sonho dos jovens é ser médico, advogado ou contador, nessa ordem.
Precisamos de mais contadores. Para aferir as contas públicas. Para auxiliar na apresentação e direcionamento do balanço social das empresas. É ele o único profissional efetivamente preparado para exercer essa função. Para mudar isso no nosso país é preciso tornar a informação contábil não apenas exata, mas acima de tudo útil. E é preciso que a sociedade exija mais e mais a prestação de contas das autoridades, de forma clara e precisa, determinando a origem e consequentemente a aplicação dos fundos arrecadados. Se os detentores do poder e os gestores da poupança privada não dão satisfação dos seus feitos contábeis, ou se tratam com descuido os recursos de terceiros colocados nas suas mãos, definitivamente não estamos falando de uma democracia. Mas os jovens das escolas de Ciências Contábeis no Brasil parecem ter despertado para certas carreiras. Num processo de recrutamento de 60 trainees de auditório na Trevisan, ainda não concluído, mais de 5 mil estudantes se apresentaram como canditados.
É porque a auditoria independente assume a plenitude da importância e relevância de sua função numa sociedade livre, em que prosperam o capitalismo e a iniciativa privada, com preocupação comunitária e social. E quanto mais o capital se desloca, mais aumenta a responsabilidade do auditor. Quanto mais investimentos acontecem, mais e mais o auditor deve verificar sua eficácia e quais arranjos são requeridos para colocar o investimento na rota do lucro. O auditor viaja pelo interior das organizações, entra na alma dos negócios e atesta o coração de empresas de todos os tipos. Pode ser um hospital, um banco, um jornal, um supermercado, uma escola, uma prefeitura ou um país. O que vale é entender tudo sobre o negócio e o mercado, para viver emoções fortes e ter comportamento ético sob o fogo cerrado, todos os dias, todas as horas.

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