O Papa Bento XVI centrou, com estas palavras, o enfoque de sua mensagem de Natal aos povos do mundo, com o alerta de que a atrofia da espiritualidade poderá levar o homem a ser vítima dos seus êxitos tecnológicos. Manifestado em vários idiomas, inclusive o português, o apelo foi transmitido a todas as nações, pelo recurso – ironicamente – de um dos mais avançados sistemas da tecnologia, o da mídia eletrônica. O homem poderá sofrer as conseqüências de sua própria inteligência ᖠdisse o Pontífice. Na verdade, o verbo no futuro deve ser convertido para a realidade presente, porque de há muito a arte sofisticada das guerras e do terrorismo está dizimando homens e destruindo cidades. Quem ouviu agora o Papa falando a um só tempo para toda a humanidade, também assistiu, em anos recentes, às guerras e à ação terrorista mostradas nas telas da TV, ao vivo. Rememore-se o ataque ao Kuwait, a guerra do Iraque, a destruição das torres gêmeas, para citar apenas exemplos recentes, a demonstrar do que é capaz a tecnologia bélica, por acréscimo associada ao ‘‘conforto’’ de os assistentes do mundo verem a guerra sentados nas poltronas de seus lares. A conclamação do líder da Igreja Católica é para um despertar da população terrena à espiritualidade, para não permitir o ‘‘vazio do coração’’. As vozes que têm emanado do Vaticano, nas últimas décadas, têm se voltado com mais freqüência para as questões temporais – e foi esse ideário que consagrou o Papa recém-falecido, João Paulo II. Agora, Bento (leia-se o sacerdote de linha conservadora Joseph Radzinger) volta-se para uma questão que se desloca do universo das necessidades sociais – pelo que se depreende do sentido de suas palavras – para tocar o homem em seu aspecto transcendente. Com seu enfoque – sobretudo depois dos últimos Concílios – para os problemas do mundo, a Igreja Católica conquistou simpatizantes, especialmente entre as correntes voltadas para o drama das misérias humanas, embora não haja angariado mais fiéis para a sua doutrina de fé. O novo ocupante do trono papal muda o tom do discurso natalino e aponta para outro despertar, o da espiritualidade, e este é sim um caminho de robustecimento do rebanho. A conclamação papal para o despertamento da espiritualidade afigura-se como um novo rumo da Igreja sob o seu comando. Os dias futuros mostrarão o significado das palavras de Bento XVI e o papel da religião católica no terceiro milênio.

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