Desperdício olímpico
A longa ressaca olímpica, de quatro anos, começa agora com enxaqueca dobrada pelo decepcionante desempenho brasileiro em Sydney. Depois das duas semanas de maratona competitiva com resultados e emoções globalizados via TV, rádio, Internet e jornais, o vexame nacional já está imortalizado apesar do horário pouco convidativo para os 165 milhões de torcedores brazucas, desafiados a varar madrugadas em busca das medalhas que escassearam.
Nada que não possa ser encoberto pelo tempo. Mais pela nossa reconhecida falta de memória coletiva que por uma evolução esportiva fantástica até Atenas-2004 ou mesmo bem adiante. Quando se trata de planejamento olímpico, o Brasil é bem mais pródigo por planos megalômanos fracassados como Brasília-2000 e Rio-2004, epopéias recheadas de maquetes fabulosas, do que qualquer apoio à carne-e-osso do atleta nosso de cada dia.
Fora as raras exceções de praxe, com o futebol masculino à frente, poucos esportes recebem investimentos de peso, seja dos governos ou de empresas particulares, sempre ávidas pelo lucro fácil do marketing esportivo. A grande maioria das modalidades, ao contrário, vai certamente hibernar até as próximas Olimpíadas, sem o menor destaque na mídia.
Uma situação que apenas acentua o desperdício dos parcos recursos repassados pelo governo federal, via Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp). Os R$ 10,4 milhões entregues ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a serem devidamente explicados na prestação de contas, são ninharia perto do investimento de outros países mais ricos, mas foram evidentemente mal aplicados.
Muitos dos 204 atletas brasileiros nas 26 modalidades em Sydney foram apenas competir, no pior sentido do termo amador: fazer turismo do outro lado do Planeta com passagem paga pelo governo. Dom Quixotes em tempos de esporte de alto rendimento. Tiveram seus 15 segundos de glória ao se expor a vexames de queimar todos os saltos, derrubar sete das dez barreiras, vangloriar-se por colocações risíveis ou acabar nas últimas posições.
Sem nenhuma chance de medalha, os turistas seguiram o melhor estilo exótico popularizado pelo nado cachorrinho do nadador de Guiné Equatorial. Um desempenho ridicularizado por rivais bem-preparados. Olimpíadas, definitivamente, não é passeio, mas a chance de mostrar o melhor de cada país.
O recorde do turismo olímpico subvencionado por dinheiro público, contudo, coube ao psiquiatra convidado pelo COB. O especialista que não teve sua formação reconhecida pelo Conselho Federal de Psiquiatria conseguiu fazer atletas andarem inutilmente sobre brasas, mas foi incapaz até de explicar as amareladas em jogos decisivos contra adversários muito inferiores, principalmente no vôlei, tanto o de praia quanto o de quadra, esporte de origem do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman. Haja espírito olímpico!
- ROBERTO NAVES é jornalista em Brasília





