DESNACIONALIZAÇÃO MASCARADA
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de agosto de 2002
Renan Calheiros 
A venda mascarada de fusão da Companhia Siderúrgica Nacional para a anglo-holandesa Corus é o resultado da falta de planejamento e de visão estratégica na privatização do setor siderúrgico. Trata-se de uma das operações mais polêmicas que se tem notícia nos últimos tempos envolvendo uma empresa genuinamente brasileira, considerada a melhor produtora de aço do mundo. Pior: significa que está em curso avançado o processo de desnacionalização de nossa economia.
Desde que foi privatizada, a companhia brasileira sempre esteve na mira do grupo britânico. A desvalorização do real tornou ainda mais atraente o preço da transação que acabou se concretizando no mês passado. A Corus assumirá o controle da CSN e pagará aos acionistas com papéis dela própria. Ou seja, além de vender o controle da CSN, haverá a exportação do capital dela, sem que entre um dólar sequer no País. Na gestão da nova empresa, também teremos menor poder de decisão e direito a veto. Vamos ter dois executivos em oito, quatro membros do conselho em doze, a partir de 2004.
É importante ter consciência de que o Brasil vive um momento sem precedentes do ponto de vista do investidor estrangeiro. Temos estabilidade política. Enfrentamos nova crise cambial é verdade mas temos uma economia sólida e definida quanto a seus rumos. Isso tudo, aliado a um mercado interno invejável, só faz aumentar o apetite externo, nem sempre saudável. Grandes empresas com problemas existem em qualquer País, mas somente aqui no Brasil companhias sólidas foram vendidas a controladores com problemas. Portanto, enfrentamos o risco real de ter uma desnacionalização profunda no Brasil. Como vimos com a CSN, isso já ocorre e será um processo muito intenso, se providências não forem tomadas de forma acelerada.
A desnacionalização já é um fato hoje nos segmentos de autopeças, de alimentos e tende a ocorrer em outros setores, à medida que se consolidem as condições favoráveis. É aí que o papel do governo é fundamental. O capital estrangeiro pode até criar trabalho. Mas devemos ter consciência de que o capital brasileiro é importante como contrapartida do capital estrangeiro, porque amanhã o Brasil pode estar em dificuldades. E nesse caso quem entrou, sai.
O capital externo não tem compromisso de longo prazo com o País. O governo não pode ter uma visão exclusivamente de curto prazo, em detrimento daquilo que significa efetivamente o futuro que todos nós brasileiros almejamos. O BNDES e os investidores institucionais deveriam se debruçar sobre a operação que envolveu a venda da CSN não apenas do ângulo financeiro, mas do interesse nacional. Esse é o poder que o governo dispõe para salvar o setor siderúrgico brasileiro e outros segmentos considerados estratégicos. A questão não é de nacionalismo fora de época, mas de desenvolvimento e soberania nacional, preceitos que não saem de moda.
RENAN CALHEIROS, ex-Ministro da Justiça e Líder do PMDB no Senado


