Desmatamento no Paraná - João Batista Campos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de abril de 1998
João Batista Campos 
Vou expor, primeiramente, uma situação hipotética: um grupo denominado de Paraná S.A., detentora de uma grande área de terra de nome Fazenda Terra dos Pinheirais, vêm até o órgão de gestão ambiental do Estado (IAP) e solicita o corte de uma determinada floresta. Após vistoriar a área e avaliar os remanescentes florestais chegou-se a conclusão que a Faz. Terra dos Pinheirais possui, apenas, algo em torno de 7% de sua área coberta com florestas e matas ciliares, praticamente não existem. Então vêm o parecer: não se pode mais desmatar na Terra dos Pinheirais.
Os proprietários da área devem, ao invés de cortar, plantar. Plantar matas ciliares, reflorestar até atingir níveis aceitáveis. Depois se conversa.
Essa não deve ser a política de licenciamento no Paraná: não se desmata mais nada no Estado.
Isso é uma posição radical, podem achar uns. Não, não é. Radical é a situação.
Mas, então é um raciocínio simplista
Também não é. É, ao contrário, um esforço de raciocínio difícil e complexo e que envolve uma série de posturas e posicionamento coletivos e individuais. Na verdade é um grande desafio.
Nesta perspectiva de postura nós deveremos ser verdadeiros Engenheiros das Florestas e não Engenheiros da Não-Floresta. Devemos ser os Estudiosos da Vida ao invés de Estudiosos da Não-Vida. Quando autorizamos um desmatamento estamos sendo a antítese daquilo que deveríamos ser, estamos sendo Engenheiros da Não-Floresta, Estudiosos da Não-Vida, Agrônomos da Não-Agronomia.
Com a verdadeira postura para a qual existimos, deveremos ter a difícil missão de buscar alternativas ao corte das florestas. Vale abrir parênteses para dizer que a floresta exerce papel econômico para a sociedade: evita erosão dos solos e turbidez das águas, proporciona equilíbrio no ciclo hidrológico, ameniza a temperatura do ambiente, evita o rebaixamento do lençol freático, diminui a velocidade dos ventos catastróficos, é abrigo natural de animais silvestres e inimigos naturais de pragas de culturas, enfim, talvez até AIDS cure, uma vez que os princípios ativos proveniente de plantas de florestas tropicais estão sendo testados contra a doença. Observem que são papéis econômicos que as florestas exercerm para a sociedade, mas, para o indivíduo particular (proprietário), as florestas não são lucrativas, pelo menos atualmente. Ou seja, qualquer uso da terra com culturas (milho, feijão, soja, café, etc.), é mais lucrativo para o proprietário do que ter a área com floresta nativa. Então é bom diferenciar: neste momento histórico as florestas são econômicos à sociedade, mas não lucrativas ao particular.
E é este o nosso desafio: tornar as florestas econômicas e lucrativas, tanto para o particular (indivíduo/proprietário) como para o coletivo (sociedade).
O que deve ser feito pelo Estado e, consequentemente, pelos gestores ambientais, é indicar, estimular e repassar tecnologia para a utilização econômica da floresta. Implícito aí a sua não degradação. Deve ser estimulada a utilização da floresta como fonte produtora de ervas medicinais, de espécies com fins estéticos e ornamentais (paisagismo), como fonte de produção de frutos, raízes, produtos alimentícios e outros subprodutos da floresta, como fonte de matéria prima para atividades artesanais, apicultura e criadouros de animais silvestres. O Estado deve ainda estimular e proteger as formas de uso tradicional da terra (compáscuos e sistemas agroflorestais, por exemplo), buscar alternativas para o uso social das florestas, como por exemplo o uso comum das reservas florestais legais de áreas destinadas à reforma agrária, estimular o ecoturismo, enfim, achar alternativas econômicas (indivíduo/sociedade) para a floresta que está em pé.
Isto é possível. É um grande desafio e a sociedade está nos cobrando este posicionamento. Eu acredito que, independente de forças ou pressões contrárias, é uma questão de postura individual de todos nós.
Olhando para frente... o que vamos responder?
Ps: Desmatamento é aqui entendido como qualquer impacto antropogênico capaz de provocar a diminuição do montante da diversidade de um local ou área (ex: desmatamento, descapoeiramento, manejo florestal, etc.).


