Conforme o entendimento dominante dos analistas políticos somente deslizes de natureza gravíssima mudam o cenário eleitoral do País. É que os gravames já identificados (todos de características seríssimas desde o mensalão, há tanto tempo metabolizado, até as mais recentes ocorrências como as da quebra do sigilo fiscal e mais a de novas evidências de tráfico de influência na Casa Civil) parecem insuficientes como se estivessemos, há tempo, rumo ao embotamento das consciências, da aceitação como ‘‘normalidade’’ de tudo que é anômalo. Isso se repete capilarmente nas estruturas municipais como estaduais, visível em nosso caso, no lodaçal sórdido e impune do legislativo estadual.
  Estamos paulatinamente perdendo os referenciais de ordem moral, aquele mínimo de exigência ética sem a qual tudo mergulha na anomia, em que também sucumbem os princípios de ordem jurídica, no caos, em função de uma desestruturação de alcance institucional, a metástase desse processo, em que o cientista social Emile Durkein enxergou uma forma de suicídio.
  Já fomos um país mais sensível para situações análogas, mas o longo convívio com formas sutís e escancaradas de corrupção nos tornou condicionados a ver no escândalo de hoje a miniatura do que virá amanhã. Em 1954, em que a crise leva o presidente Vargas ao suicídio, tudo decorreu de um deslize venial: o apoio do Banco do Brasil para o funcionamento de um jornal, ‘‘Última Hora’’, para oferecer-lhe cobertura quando era grande o cerco da mídia contra a linha nacionalizante do seu governo. Por favor, leitor, compare os fatos e veja a profundezas do lamaçal a que chegamos.
  Evidente que a tragédia referida resultou na derrota dos que tentavam minar o campo eleitoral contra a aliança PSD-PTB que elegeria Kubitschek. Negócios de hoje são monumentais e que revelam pacto entre Estado e setores privados numa aliança que faz lembrar o complexo militar-industrial norte-americano.

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