Deslize providencial
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, reverenciado como gênio da economia de mercado, considerado um craque em domar especuladores em momentos de tensão, apontado como hábil articulador entre operadores financeiros, abalou o mercado na quarta-feira ao declarar que pouca coisa poderia ser feita para proteger o real.
É uma mudança radical. Nos piores momentos da economia brasileira desses anos FHC, o presidente do BC, sempre que veio a público, adotou tom e discurso tranquilizadores, garantindo que ele e o ministro Pedro Malan sabiam o que estavam fazendo. Agora, a menos de três meses do possível fim da festa tucana no Poder, joga a toalha e confessa impotência. No dia seguinte, o câmbio encostou em R$ 4.
Só a declaração bastaria para alimentar a especulação e, quem sabe, o medo de Lula lá. Fraga sabe disso melhor que ninguém. O quadro piora ainda mais com os comentários tucanos, proferidos aleatoriamente, de que Luiz Inácio Lula da Silva poderá adotar câmbio fixo em seu eventual governo. Proposta que nunca figurou no programa do PT, tem repetido exaustivamente o assessor econômico do partido, Guido Mantega.
O fato é que Lula tem sido claro ao descartar, na hipótese de ser eleito, Fraga na direção do ''seu'' Banco Central. O Planalto tentou jogar a isca mais de uma vez, mas o PT não mordeu. A crise teria solução, sugere Fraga, com a condição de que ele esteja no comando. Mas, ao que indicam os resultados do primeiro turno das eleições, o brasileiro não comprou a teoria.
Depois da bomba lançada na quarta-feira, o Planalto veio a público desaprovar a conduta de seu xerife financeiro, dizendo que foram declarações desastrosas. Até mesmo a aparência do presidente do BC desagradou o 'imparcial' FHC que viu no colarinho relaxado e no nó frouxo da gravata que ele usava durante a entrevista o que poderia ser interpretado como a derrota do BC para o mercado. Por isso, o presidente repreendeu Fraga. E essa, será que o eleitor compra?
Ruth Meira





