Nascido em Portugal, Antônio dos Reis Félix, 64 anos, aprendeu a trabalhar com combustíveis na África, em Angola, onde atuou no sistema de distribuição de uma multinacional do petróleo. Há 33 anos no Brasil, ele continua trabalhando no ramo de distribuição de combustíveis e se orgulha de poder mostrar a nota fiscal que registrou venda de biodiesel feita em junho de 2004 pela Biolix, a empresa que ele fundou em Rolândia.

Reivindicando o título de primeiro a produzir esse combustível no Brasil, Félix está com a sua usina parada em pleno ano em que o governo obriga a mistura de 2% de biodiesel ao diesel, resultando no chamado B2. Em um escritório com diversas fotos registrando a sua participação em eventos relacionados ao produto, uma delas ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele conta por que parou de produzir.

O senhor começou a produzir biodiesel quando praticamente não se falava sobre esse combustível no Brasil. O que o motivou a investir em algo que ainda era desconhecido?
Sabendo que o petróleo é uma fonte não renovável, percebi que o caminho realmente era o biocombustível. Procurei, no Brasil, quem já estivesse dedicado ao biodiesel. Embora não houvesse nenhuma fábrica, pesquisas já estavam sendo feitas. Foram os brasileiros que descobriram como fazer o biodiesel utilizando etanol como parte do processo químico, diferente do que acontece na Europa e Estados Unidos, onde se usa o metanol. Os brasileiros também prepararam os equipamentos para o processo. Encontrei um cientista em Minas Gerais, o engenheiro Artur Augusto, que é o detentor do processo para fazer o biodiesel utilizando o etanol. Fomos a primeira empresa do Brasil a fazer biodiesel.

Quanto o senhor investiu na fábrica?
Tanto o investimento financeiro quanto o entusiasmo foram grandes. Sobre a parte financeira, posso dizer para você que se fosse construir aquela fábrica nos dias atuais, o investimento seria de uns R$ 15 milhões. Quando entrei no negócio, me instituí como sacerdote do biodiesel, não como comerciante ou industrial do biodiesel, pois sabia onde estava pisando. Não fosse o entusiasmo, não teria entrado. Pena que o governo errou na sua política de produção de biodiesel.

Onde o governo errou?
O governo percebeu que de uma maneira socialista poderia extrair dividendos políticos do biodiesel. Dessa forma, classificou as regiões como de primeira e de segunda. A de primeira é a região Nordeste. O governo voltou toda a sua visão para lá e deu todos os incentivos para as fábricas ali instaladas. Outro equívoco foi dirigir os créditos às fábricas e não aos agricultores. Quem produz com certos produtos como palma e mamona tem incentivos com a redução de impostos como o PIS e Cofins de até 100%. Nas outras regiões, não há redução de impostos, pois não há produção de mamona como lá.

Qual era a sua produção mensal?
Aí está outro grande erro do governo. Fomos autorizados a fabricar biodiesel, mas não a vender, a não ser para as distribuidoras. O mercado ficou absolutamente limitado - fabricava, mas não tinha para quem vender, já que as distribuidoras não estavam interessadas. Dessa forma, a minha produção era intermitente, produzia somente para um consumidor, que era eu mesmo. Mas tive que parar, pois sofri uma fiscalização da Agência Nacional de Petróleo (ANP) que disse que eu não podia fazer isso. Então, parei de fabricar.

Mas com o B2, o panorama não muda totalmente? O senhor não cogita a possibilidade de voltar a produzir?
Não.

Qual é a matéria-prima que o senhor estava utilizando?
Como estávamos em fase de pesquisa, utilizamos tudo: sebo animal, amendoim, soja, girassol, nabo forrageiro, algodão. Queríamos saber qual seria a melhor, do ponto de vista do agricultor, do biodiesel e da pecuária.

Qual é a melhor?
Nabo forrageiro. Trata-se de uma planta de entressafra, que não mexe com o plantio de soja e nem de milho. Nosso maior trabalho foi conscientizar os agricultores a plantarem o nabo forrageiro. Somente alguns responderam de forma positiva. Fomos aos técnicos. Encontramos um que topou trocar o farelo de soja pelo nabo forrageiro. Esse técnico constatou que o boi que engordava 1,3 kg ao dia com o farelo de soja, passou a engordar 1,8 kg ao dia com o nabo forrageiro. Mas ainda tínhamos perguntas a responder sobre essa matéria-prima. A UEL ajudou demais fazendo as análises para toxidade. Todas as amostras foram negativas. Faltava saber sobre os resultados alimentares. Então, uma pessoa que estava fazendo mestrado na UEL, Ana Paula Fortaleza, estudou os benefícios do farelo do nabo forregeiro na alimentação animal e chegou a conclusões positivas sobre isso.

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