Um aluno que completa o ensino fundamental em colégio privado sabe, em média, mais que um formado no ensino médio público. É o que apontou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), do Ministério da Educação (MEC). Apesar da distância que separa a rede pública da particular ter caído entre 2005 e 2009, a desigualdade entre as duas redes ainda é grande.
''Os professores da rede pública são menos motivados e os recursos pedagógicos são menores. Além disso, o aluno da instituição privada, normalmente, tem um nível socioeconômico mais alto e chega na escola com um capital cultural maior'', explica Maria Márcia Sigrist Malavasi, doutora em educação e coordenadora do curso de pedagogia da Universidade de Campinas (Unicamp).
Nesta entrevista, ela defende a implantação do ensino integral, de políticas para melhorar a formação dos professores e compara o investimento público em educação no Brasil com o de outros países.
O que explica a distância entre a qualidade do ensino público e privado no País?
De fato, as escolas públicas, em média, têm ensinado menos do que as instituições privadas. Isso acontece porque na rede pública os professores são menos motivados e os recursos pedagógicos são menores. Além disso, o aluno da instituição privada, normalmente, tem um nível socioeconômico mais alto e chega na escola com um capital cultural maior. A criança de escola pública, de modo geral, não apresenta isso.
E o que fazer para reverter esse quadro?
Precisamos de melhores recursos pedagógicos, professores mais motivados, aumento de salário, melhor formação do profissional, escola de período integral. É preciso haver um ensino integral para que as crianças possam ter contato com uma diversidade de atividades que muitas vezes a família não tem condições de proporcionar. Além disso, é preciso haver o envolvimento da comunidade.
Deve haver políticas públicas corajosas e muito dinheiro, pois educação custa caro. E, lamentavelmente, os investimentos em educação demoram para trazer resultados. Por isso, há políticos que preferem construir uma ponte, uma vez que a obra traz um retorno imediato e as pessoas veem o trabalho.
De acordo com o MEC, em 2008 o investimento público em educação foi de 4,7% do PIB no País. Em contrapartida, a Austrália, Noruega, EUA, Coreia do Sul e Suécia chegaram a investir entre 7,5% e 8,5% do PIB. O problema é que a educação não é prioridade no Brasil?
Normalmente países pobres como o Brasil não priorizam a saúde, a educação e a habitação. É uma lógica muito perversa. Quanto mais pobre é a nação, menos ela investe em fatores que poderiam tirá-la da situação de pobreza. O investimento em educação aumentou no Brasil, mas ainda é pouco e é menor do que a população merece com os impostos que paga.
Quais políticas devem ser implementadas para reduzir o abismo que separa as instituições particulares das públicas?
O projeto de ensino integral é o principal. Todo país desenvolvido que preza pela educação tem uma escola básica de período integral. Além disso, é preciso implantar políticas para melhorar a formação dos professores. Hoje mais da metade deles são formados em escolas de baixa qualidade, indo para a sala de aula sem preparo suficiente.
Qual é a forma ideal de medir a qualidade de ensino?
É preciso realizar uma avaliação qualitativa e outra quantitativa. Os testes são bons indicadores, mas não quando estão sozinhos. É preciso ver onde estão as boas escolas e ir ver porque elas se destacam. É importante fazer a mesma coisa com as instituições onde as crianças apresentam baixo desempenho, observando o que elas fazem e o que seria interessante mudar.

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