Manuel Joaquim R. dos Santos

Prisioneiros do negativo e da desgraça, vivemos matando um leão por dia! E o leão nos devora ano após ano, sugando-nos o sangue e o suor. Neste Brasil da Amazônia, da soja e do petróleo, as comemorações alvissareiras são mínimas, ínfimas e quase inexistentes. Em meia hora de telejornal somos literalmente abalroados pelas tragédias humanas que por estes lados se tornaram arroz com feijão! Quando não são os desdobramentos das inúmeras operações do Ministério Público, são os banalizados assassinatos de jovens e adolescentes que se tornaram literalmente lugar comum no espectro social do País. E como sobremesa desse indigesto almoço, os mais de quarenta mil que perdem a vida num trânsito caótico e desrespeitoso.
Nosso dia já começa tenso e as horas se arrastam numa apreensão contínua com os imprevistos que, em geral, trazem as cores da morte. Os nossos conterrâneos mais pobres e indefesos sobrevivem literalmente nessa ciranda de armadilhas fatais; perder o ganha pão em tempos de crise parece ser das menores! As nossas crianças defendidas legalmente por um dos melhores arcabouços jurídicos do mundo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), são vítimas de trabalho infantil, abusos variados e massacradas por programações televisivas mórbidas, que apelam para uma precocidade sexual tremendamente nefasta para um crescimento sadio. Isso quando simplesmente não falta escola e sobra o meio-fio da rua!
A infraestrutura reflete a ausência de profundos investimentos e, o pior, aponta para uma cultura de corrupção que tem vingado no país. Sem ela, o avanço e o progresso, potenciais geradores de riqueza e desenvolvimento, ficam amarrados e petrificados. Nossas cidades são antros de angústia e dificuldade que tornam a vida de muitos uma autêntica odisseia. Despojadas de recursos, cresceram além e bem antes do que seria fundamental em termos de instituições públicas. Se na modernidade, morar na cidade representava segurança e bem-estar, hoje nos dilacera a nostalgia dos idílicos e poéticos sítios e fazendas!
Tudo isso é verdade. No entanto, desdenhar e ridicularizar o nosso país, sublinhando, evidenciando e propagando o que temos de negativo, não cria condições favoráveis ao virar de página que se faz necessário. São pequenas coisas, mas no Brasil de hoje e de ontem, temos diferenciais que são como molas propulsoras para irmos adiante. Não é possível que a morte e as desgraças nos persigam, como fados traiçoeiros que apontam para um destino trágico em que ninguém de bom senso acredita! Somos o que somos porque ainda temos dificuldade de viver em sociedade. De convivermos pacificamente respeitando o que não nos pertence e não confundindo o privado com o público. Achamos puerilmente que as premissas da formação da nacionalidade são eternamente responsáveis pelas mazelas atuais. Isentamo-nos de qualquer culpa e a empurramos para estruturas caducas e malfazejas ou para elementos perniciosos e talvez descartáveis. Assim, possuídos pelo medo refletimos as patologias e neuras que o caracterizam. Somos infelizes ao nos recusarmos a aceitar o fato de que o bem-estar e a própria felicidade estão ao nosso alcance. Sendo um país majoritariamente religioso temos a obrigação moral de nos superarmos e abrir caminhos compatíveis com a nossa fé.
A esperança tem nome e rosto. Não é com certeza apostando na redução da maioridade penal ou numa limpeza eugênica que a demonstraremos! A esperança passa pela redução de fossos e distâncias entre cidadãos do mesmo país. A esperança é aposta clara no pacifismo e numa cultura de acordos. Enfim, a esperança é a utopia de uma nação em que "todos sejam iguais e não uns mais iguais do que outros".

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina



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