DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL - É preciso frear o consumismo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Já é sabido que o consumo desenfreado, que teve como berço os Estados Unidos, está disseminado. Só na China, são um bilhão e trezentos milhões de consumidores aptos a gastar. No Brasil, o que há de mais caro gera fila de espera, desde carros a sapatos. Nesta ciranda, a indústria produz em larga escala e o resultado está aí: tragédias ambientais, máscaras em Pequim, congestionamento em São Paulo e o típico 'salve-se quem puder'.
Para a professora Lília Rodrigues, o sinal vermelho já acendeu faz tempo. Em entrevista à FOLHA, a coordenadora do curso de design da Unopar destaca a importância de pensar cada vez mais na concepção de produtos de alta durabilidade, evitando que o consumidor converta em lixo o lançamento de meses atrás.
Sabe-se que o desenvolvimento sustentável no Brasil está longe da meta. Como trazer a conscientização para a concepção de produtos?
A conscientização é a primeira etapa, uma vez que as novas gerações estão mais cientes do acréscimo de lixo e de coisas desnecessárias no mundo. Com o aluno de design trabalhamos muito o conceito de obsolescência programada. Como é sabido, as empresas desenvolvem produtos com um tempo de vida de mercado para promover novas vendas. Um novo modelo de celular vai durar um ano. Isso resulta numa infinidade de lixo. Na verdade não há mudança de tecnologia, um diferencial. E o conceito de sustentabilidade está ligado ao ciclo de vida dos produtos.
Como a senhora analisa o comportamento do consumidor brasileiro, diante de tantos lançamentos?
O consumidor precisa ser educado com aqueles conceitos que muitas vezes passamos em sala de aula: é preciso aposentar esse consumismo desenfreado. Na verdade, tudo isso é muito fake (falso). Você está gerando dinheiro sem ter benefício de verdade. À medida que as pessoas derem mais importância à sua qualidade de vida, ao ar que se respira, a água que se toma e o lixo que se produz, o consumismo tende a diminuir.
O consumidor consciente é uma realidade distante?
Falta muito a ser feito, e isso passa pela educação e pela cultura. Em Londrina, por exemplo, vemos barbaridades como pessoas atirando garrafas long neck nas calçadas e nos canteiros. Papel de bala no chão, bituca de cigarro atirada pelo carro, entre outros maus exemplos, são inadmissíveis para o futuro do planeta. Não são só celulares e câmeras novas. Os mínimos gestos também fazem diferença.
Em relação à degradação do planeta, estamos perdendo a batalha contra o relógio?
O sinal é vermelho, estamos prestes a entrar no roxo. O alerta está aí. Temos as grandes catástrofes, o aquecimento global, a falta das estações do ano, as secas, tudo isso é um sinal vermelho. As pessoas continuam num mundo de status e consumo quando na verdade deveriam resgatar valores de subsistência.
Em quais países nota um envolvimento maior, por parte da população e do empresariado em relação à sustentabilidade?
Na Europa temos um avanço cultural maior em relação ao planeta. Daí a necessidade de as coisas se tornarem lei. A Alemanha tem leis rigorosíssimas em relação a dejetos da indústria na água. No Brasil, ainda estamos engatinhando. Embora existam as leis, elas são desobedecidas e esse é um problema cultural, com o famoso 'jeitinho'.
Como começar a mudar isso?
Precisa haver mecanismos reveladores da atuação das empresas. Já que as empresas se queixam que os gastos são altos, por que não sair dessa sistemática de um ficar jogando para o outro? O consumidor seria o maior beneficiário.


