Por séculos, a humanidade produziu alimentos de maneira sustentável. Nos últimos cem anos, porém, o crescimento da população e a busca pelo lucro rápido modificaram esse panorama. A criação de animais passou a ser intensiva. Este sistema resulta em graves consequências para o meio ambiente.
Apenas nos Estados Unidos, 10 bilhões de animais são abatidos por ano, o que representa geração de 500 mil quilos de resíduos a cada cinco segundos. Resíduos estes contaminados por patógenos e antibióticos. A consequência desse modo de produção é que o agronegócio é responsável atualmente por 25% das emissões de carbono registradas em todo o mundo.
E o impacto da produção de alimentos por meio do modelo do agronegócio nas mudanças climáticas é o tema desta entrevista com o pesquisador de Direito Ambiental da Universidade de Pace, em Nova York, David Cassuto. O pesquisador esteve em Curitiba na última quarta-feira para proferir palestra a convite da coordenação de pós-graduação do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do Consulado Geral dos Estados Unidos.
Qual impacto o atual modelo de produção do agronegócio traz para o meio ambiente?
A maneira como os animais são criados para a produção de alimentos desequilibrou totalmente o meio ambiente. Os transportes consomem muita energia, mas a agricultura tem uma pegada ecológica maior ainda. Isso acontece porque o consumo de produtos animais tem crescido 3% ao ano. Até 2050 o consumo de carne vai duplicar. Hoje 25% das emissões de carbono no mundo vêm da produção agropecuária. Se o consumo realmente duplicar vai haver um impacto ambiental imenso.
Por que os métodos usados hoje no campo provocam tantos problemas?
É uma questão de volume e de falta de regulamentação. Nos Estados Unidos há poucas leis regulamentando a agricultura industrial. Tem a ver com o fato de que eles se veem como fazendas e não como fábricas. As fazendas exigem uma consciência ambiental, porque não dá para plantar em terra poluída nem criar animais sem pasto. Nos processos industriais, a relação com a terra não é necessária.
Hoje 10 bilhões de animais são mortos anualmente nos Estados Unidos para consumo, sem falar na indústria de lactinício. Esses animais produzem 500 mil quilos de resíduos (estrume) a cada cinco segundos. São resíduos tóxicos, que têm patógenos (causadores de doenças), antibióticos, o que cria uma catástrofe ambiental. Quando esses impactos são ignorados aparecem os problemas ambientais.
Movimentos que reivindicam a redução do consumo de carne, seja com foco no bem-estar animal, seja pela preocupação com a saúde humana ou a preservação do meio ambiente, não estão sendo suficientes para conscientizar a população mundial?
Eu espero que sejam. Nos Estados Unidos, no entanto, os americanos consomem 20 quilos de carne a mais do que há 40 anos. Países em desenvolvimento, como a China, também estão consumindo mais. A questão dos direitos dos animais não está na mente da maioria das pessoas. E essa questão é muito interessante. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil, os animais são confinados em áreas pequenas, onde não podem nem se mexer. Alguns nunca veem a luz do dia, recebem muito antibiótico. Enfim, a vida deles é horrível. São tratados como bens e não como seres vivos. Do ponto de vista da ética, do bem-estar animal, o que estamos fazendo é uma coisa terrível.
Qual é a sua avaliação sobre a legislação ambiental brasileira?
As leis brasileiras têm um grande nível de conscientização do princípio de precaução, ou seja, é preciso estar alerta para problemas que podem surgir futuramente. Já nos Estados Unidos, a lei reage a problemas já existentes. No Brasil, as pessoas estão acostumadas a ter regulamentos que regem seu comportamento na terra privada. Nos Estados Unidos, há muita resistência e muita dificuldade para aprovar e fazer cumprir leis ambientais. As pessoas resistem a mudanças que venham causar prejuízos econômicos.
Qual é a saída para essa situação?
São questões culturais que estão embutidas na sociedade. São aspectos econômicos, legais, sociais, como a gente come, como produz alimentos, isso vem desde o início da humanidade. O interessante é que desde o início a humanidade sempre produziu os alimentos de maneira sustentável, mas nos últimos cem anos este sistema fugiu do controle totalmente.
Não se trata de fazer mudanças radicais, mas de nos reconectarmos às nossas raízes e à idéia de que não podemos subsistir de uma maneira que afete o nosso ambiente e a nossa saúde.

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