DESENVOLVIMENTO INFANTIL - A hora de brincar é sagrada
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quinta-feira, 31 de maio de 2007
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
Brincar ajuda a formar cidadãos mais seguros, que conseguem compreender até onde podem ir e onde começa o direito do outro. A afirmação é da terapeuta ocupacional Edna Gon. Segundo ela, os pais colocam expectativas demais sobre as crianças e fazem para elas agendas de empresários. ''Queremos que nosso filho seja uma grande pessoa, de muito sucesso, que seja alguém que não fomos. Na verdade devemos permitir que a criança seja aquilo que quer ser. Não devemos direcionar sonhos, mas mostrar caminhos.''
Qual a importância de brincar?
É a oportunidade que a criança tem para se desenvolver. Brincando ela experimenta, descobre, inventa, aprende e desenvolve habilidades e o raciocínio lógico. Além de estimular a curiosidade, autoconfiança e autonomia, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento e da concentração. Por meio da brincadeira a criança começa a se desenvolver, vai construindo sua relação com o mundo, sua imagem.
As brincadeiras mais tradicionais, em que era preciso interagir com o outro, fazem falta?
Está faltando a criança buscar esse convívio. Hoje não se pode mais ficar na rua, na casa do colega. As escolas têm procurado desenvolver essas brincadeiras. Mas os pais precisam fazer sua parte: vai lavar o carro com o filho, isso ensina a valorizar aquilo que um dia ele vai ter. A brincadeira não é só com o brinquedo, mas passar horas agradáveis desenvolvendo um ato com um objeto concreto das nossas vidas. É interessante brincar de arrumar quarto.
Há diferenças entre brincadeiras de meninos e meninas? Deve haver restrições?
Não deveria existir. Com o tempo, a criança vai construir a sua imagem, inclusive sexual. Sempre houve um tabu: menino não brinca de boneca, menina não brinca de bola. O problema não está na brincadeira, mas sim na formação que recebe da família. Vemos que alguns meninos têm uma alma mais feminina, porque está faltando a participação da figura masculina nessa brincadeira, na vida dele. Se formos ver, a mãe e a avó foram as pessoas sempre presentes. Aos cinco, seis anos, a criança começa a estabelecer suas preferências, escolher as pessoas com quem eles vão brincar. Até essa idade eles não vêem diferença na sexualidade. Com sete se identificam mais com os do mesmo sexo, isso faz parte do desenvolvimento.
É importante que as crianças estabeleçam as regras, sem ter sempre a supervisão de um adulto?
Sim, isso serve para a criança formar percepção, melhorar a atenção, inclusive tornar-se uma pessoa mais segura no futuro. Hoje temos muitas crianças com síndrome do pânico, com transtorno obsessivo-compulsivo. É muita informação, estimulação visual.
Mas vivemos em uma sociedade extremamente competitiva. O que fazer?
A resposta é o que é importante para minha família e não para o meu vizinho. É começar a desenvolver valores familiares individuais. Por isso é que essa educação não pode ser transferida para a escola. Porque na escola é uma mistura de valores. E como fica isso se a criança não tem uma base sólida na família? É simples, o que é valor para minha família pode não ser para a sua.
Mas é uma medida difícil, porque parece que a própria família está muito perdida?
Porque queremos ter o que o outro tem. Sonhamos em ganhar na mega-sena, mas não sabemos nem o que fazer com esse dinheiro. Porque as pessoas não têm preparo, a auto-estima é muito baixa. Falta convívio familiar. Nós, terapeutas, pedimos aos pais reservarem uma hora por dia para ficar com o filho, mas não na frente da TV. Os pais devem construir relações, não podem deixar a cargo da escola o ato de brincar, o ato educacional, porque amanhã vão precisar ter essa relação com o filho adulto. E aí a ponte não foi construída.


