Desencontro com a decência
Rubem Azevedo Lima
A capacidade que os brasileiros tinham para indignar-se diminuiu muito no último meio século. A mentira, a corrupção, a violência e a impunidade se banalizaram e as pessoas habituaram-se a conviver com esses males. Não se chegou a isso abruptamente. Aos poucos, as pequenas faltas éticas tornaram-se grandes. Falava-se desses deslizes aos que os cometiam, em meio ao clima de decomposição de valores, e as respostas dos infratores indicavam a tendência para se acomodarem ao laxismo social. ‘‘Que é que tem?’’ – justificavam-se, quando alertados sobre quaisquer sinais de sua insensibilidade moral.
Os regimes de exceção nos países pobres, ou a exploração desses pelas nações ricas, desmoralizaram a política e alienaram os jovens. A disseminação das drogas, o consumismo, a exposição à violência dos programas de televisão e dos videogames, a decadência do ensino, o desemprego, a inoperância dos governos e a omissão dos outros poderes contribuíram para agravar esse elenco de fatos.
Evidentemente, outros fatores também levaram o País ao sofrimento e o povo à desesperança. Está tudo perdido? Não. Os meios para reverter a tragédia de viver no Brasil estão na Constituição de 88, a começar pela autonomia do Ministério Público, integrado por jovens operosos e corretos, que podem errar, mas por amor à honestidade e pelo empenho em limparem nossas muitas estrebarias de Áugias.
Enquanto o Congresso vacila e o governo tenta abafar as ligações de Eduardo Jorge com o juiz Nicolau Neto – acusado de roubar R$ 169,5 milhões do Erário – os promotores agem: vão ouvir o ex-ministro e amigo do presidente da República. Farão o que devem fazer. Afinal, dar a palavra a Eduardo Jorge, em comissões legislativas, sem os poderes de uma CPI, seria repetir o erro do caso Sérgio Motta, em que nada se apurou sobre a compra de votos para a reeleição de FHC.
Só na anomalia do processo do Galeão, contra Getúlio Vargas, dada a omissão dos poderes constituídos, a Aeronáutica, que o prejulgara, chamou a si a tarefa de julgá-lo e condená-lo pelo atentado a Carlos Lacerda. Para que não prosperem, hoje, violências iguais ou prejulgamentos, o escândalo Eduardo Jorge deve ser apurado pelos órgãos competentes: o Ministério Público e a CPI do Legislativo, no qual, aliás, o governo FHC tem maioria. Vargas, estadista, não fez nem fingiu nenhum gesto contra as investigações sobre Gregório, seu fiel servidor no Catete e mentor do atentado. Ante a falência da ordem legal, ao ver que o complô do Galeão o imolaria, apesar de inocente, Vargas matou-se, denunciando, assim, o golpismo dos que o apeariam do poder e desnacionalizariam o País – o que se fez após 1995.
Sob a democracia, todos querem o País limpo, governos sérios, não suicídios. Pior do que tudo que a CPI possa revelar, é proibi-la de existir. O veto à apuração completa de qualquer escândalo será novo desencontro do Brasil com a decência.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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