Desencanto eleitoral - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de setembro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Em 1989, o percentual dos que votaram em branco, anularam o voto, ou não compareceram para votar na eleição presidencial, foi de 17,60%. Em 1994, este percentual chegou a 33,39%. O que acontecerá nesta eleição de 1998 não dá para prever, mas pesquisas têm apontado para um eleitor indiferente à campanha e avesso, na sua maioria, aos programas eleitorais gratuitos veiculados por rádio e televisão. Naturalmente não faltam explicações para o fenômeno por parte dos cientistas políticos brasileiros, e muitas das opiniões são coincidentes, inclusive, com as dos especialistas em política de outros países, pois este índice de indiferença se repete hoje em todo mundo.
Será, então, que o primado da política está desaparecendo do planeta? Ou será que este século urbanizado e materializado, rico em conquistas tecnológicas, em aumento de níveis de bem-estar social, em velocidade dos meios de comunicação e transporte, e relativamente pobre em avanços intelectuais, morais e culturais, gerou um homem incapaz de romper o círculo estreito onde se move em busca de mais conforto, e indiferente ao que se passa ao seu redor?
Será que a visão das catástrofes e dos dramas que ocorrem no planeta, dos problemas mostrados torrencialmente pela imprensa, insensibilizaram o ser humano acostumado a assistir a tudo pelas telas de TVs como se visse mais um daqueles seriados eletrizantes e brutais que nada têm a ver com criaturas de verdade? Faltam ainda dados para uma interpretação mais profunda de nossa época, mas este é um quadro aproximado da atualidade mundial visto a partir de uma reflexão mais ampla.
Aliás, parece que estamos começando a viver na realidade virtual, onde a política também é virtual. E acredito que é a partir desta visão globalizada em todos os aspectos humanos, que se pode produzir explicações mais coerentes no sentido de compreender também as realidades específicas relativas à esfera política existente em cada país.
No Brasil, os motivos do desencanto eleitoral são interpretados através de efeitos, e não de causas. Neste sentido, aponta-se a atual indiferença do eleitor como derivada das eleições sucessivas, ou da falta de polarização entre candidatos à Presidência, visto que é esperada a vitória de Fernando Henrique Cardoso, o que faz supor que a maioria dos eleitores está satisfeita com sua gestão e confia nele. Estas explicações são válidas. Outras, fabricadas por intelectuais das hostes perdedoras, são absurdas como aquelas que pontificam sobre a negação do processo democrático por um eleitor alienado. Mas nenhuma contém uma visão global, estrutural, ou institucional.
A visão global foi traçada sucintamente no início deste texto, e, naturalmente, o Brasil recebe esta influência globalizada ainda que reaja de acordo com sua própria realidade. A visão que incluiu a estrutura brasileira, ou seja, o todo social em seus aspectos cultural, econômico e político inter-relacionados, ajuda a explicar por que o eleitor está mais perceptivo e mais crítico por força de suas experiências políticas e de evolução histórica do País e, portanto, mais apto a diferenciar o candidato capaz de lhe garantir maior segurança e melhores níveis de vida, daquele que lhe promete o paraíso a partir de promessas absurdas. A visão institucional completaria análises que poderiam explicar um eleitorado mais capaz de questionar eticamente a fragilidade dos partidos políticos, ou a corrupção e a inoperância existentes nos poderes constituídos.
Justamente ao se levar em conta o amplo contexto mundial e brasileiro, percebe-se mais claramente o quanto chegam a ser grotescas certas atitudes e discursos de muitos candidatos. É como se estivessem fora de compasso. Eles insistem na mesmice da crítica pela crítica, e anseiam pelo quanto pior melhor na esperança de que indivíduos insatisfeitos partam em busca de alternativas políticas prometidas por salvadores da pátria. Esses candidatos, patéticos e defasados, desesperam-se diante da derrota iminente, pregam sobre o apocalipse, derramam um amontoado de mentiras e pedem em vão que acreditem neles.
Evidentemente, estamos diante de uma séria crise financeira mundial, e alterações pouco agradáveis podem acontecer na nossa economia. Mas exatamente por conta disso, o eleitor requer de seus governantes aqueles atributos que começam a integrar o equipamento intelectual dos vencedores da nossa época: competência e seriedade. E essa simples fórmula a maioria dos candidatos não entende. Eles apresentam problemas mas não apontam soluções.
Mas para que eleger alguém que não seja capaz de trazer soluções possíveis? No tecnológico mundo de hoje, dificilmente se acredita em mágica. Apenas se pede planejamento racional, resolução de problemas e equações correntes relativas a alternativas e prioridades. Esse é o moderno modo de tratar a coisa pública a fim de atingir o objetivo do bem comum. E esse é o modo de fazer política que se deseja atualmente. Uma política mais distante das emoções e mais perto das realizações. E se candidatos não entendem isso, depois não se queixem do aparentemente desencantado eleitor. Este tem suas razões.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


