Desemprego urbano e o emprego rural - João Claudio Todorov
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de abril de 1998
João Claudio Todorov 
A Reforma Agrária tem sido objeto de disputas maniqueístas e simplificadoras. Não havia, até recentemente, uma base de informações segura e confiável. Quantas famílias foram assentadas? O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) tinha um número, a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) tinha um número menor, e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), menor ainda.
Outro exemplo de confusão na área de informações é o conflito entre dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1985, e os diversos cadastramentos fundiários feitos pelo INCRA. Bases precárias de informações são como areia movediça: quanto mais firme você se apóia nela, mais afunda.
Até a nomeação do ministro Extraordinário de Política Fundiária, decisão do Presidente Fernando Henrique Cardoso, reagindo ao massacre de Eldorado dos Carajás, a base de dados sobre Reforma Agrária era disso: areia movediça. Parecia terreno firme. Mas não era.
Com esforço atual do INCRA, podemos afirmar que até recentemente não tínhamos como determinar a real extensão das terras improdutivas. Hoje, com as fotografias tiradas por satélite, é possível saber até quem está queimando mata na Amazônia. Mas ainda não sabemos o número efetivo de trabalhadores rurais sem-terra, e o que é pior, sem emprego. Não há trabalhos sistemáticos, por exemplo, sobre o desenvolvimento capitalista-empresarial da agricultura em determinadas regiões, contrastando com a natureza fundiária de propriedade e de posse de terras.
A falta de informações também, por decorrência, alimenta um maniqueísmo primário, que ainda vê, na posse privada de pequenos lotes de terra, um antídoto ao latifúndio tradicional. Esta posição não leva em conta que a sociedade brasileira - especialmente nas últimas três décadas - tem sofrido uma enorme transformação. Grande parte da produção agropecuária se submete aos ditames da indústria, excetuando-se as regiões de fronteira (Norte e Centro-Oeste) e o Nordeste tradicional (onde impera o latifúndio clássico). Esse novo ambiente, que deixou de ser caipira e passou a ser country, nos coloca a necessidade de reconhecer um novo mercado de trabalho rural. Barretos (SP) está a dez anos-luz de Paragominas. A proteção e o apoio à agricultura familiar têm que levar essas diferenças regionais em consideração.
No Sul e Sudeste, vale a expectativa de que a renda do pequeno produtor rural será aumentada pela prestação de serviços a grandes produtores vizinhos. Vale também para áreas específicas do Nordeste, como as margens do São Francisco e o sul do Maranhão. Essas exceções são ilhas num mar de oportunidades.
Os investimentos na agricultura familiar, dos com ou dos sem-terra, como agora está sendo feito, gera empregos no campo. Retira famílias da miséria. Aumenta a produção nacional de alimentos. E, last but not least, diminui as estatísticas futuras de desemprego urbano.


