Uma das características marcantes do sistema socialista era a tentativa de integração da sociedade em torno de um Estado totalitário, supridor de tudo e de todos, objetivando contrapor-se ao sistema capitalista. E o final desta epopéia todos nós conhecemos muito bem. Mas será que o capitalismo pode ser considerado um sistema ininterrupto e inabalável, imune aos sobressaltos da humanidade?
Com certeza que não. E poderíamos listar aqui inúmeros efeitos colaterais que o sistema capitalista provoca, muitas vezes mais nocivos do que benéficos. Mas, tomemos como reflexão de análise apenas um destes ''efeitos'', mundialmente conhecido como desemprego.
O mercado de trabalho em todo mundo passa por profundas e intensas transformações, já não bastassem os avanços tecnológicos em que, por exemplo, uma máquina substitui dez pessoas, agora se ressente a ameaça da globalização, com a derrubada de todas as fronteiras.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem hoje no mundo mais de 800 milhões de desempregados, nível altíssimo desde a Grande Depressão que assolou a década de 30.
Somando-se o contingente de desempregados e de subempregados (economia informal) em todo o mundo, beira-se assustadoramente a casa de 1 bilhão de pessoas, o que representaria, aproximadamente, 30% de toda a força mundial de trabalho.
E o Brasil, como não poderia deixar de ser, lamentavelmente ocupa um lugar de destaque nestas estatísticas. Segundo pesquisas elaboradas pelo economista Márcio Pochmann, da Unicamp, o Brasil é o terceiro país no mundo na categoria de desemprego em números absolutos.
Os dados são de uma pesquisa realizada com base em dados oficiais de 141 países. Em 1999, o volume de desemprego aberto em todo o mundo foi de 138 milhões de trabalhadores. O Brasil, com base em dados do IBGE, com 7,7 milhões de pessoas sem trabalho, concentrou 5,61% desse total, ficando atrás apenas da Rússia com 9,1 milhões de pessoas sem emprego, e da Índia com quase 40 milhões.
Os dados são alarmantes e ao mesmo tempo inquietantes, já que a situação pode ser tipificada como crônica haja vista que isto passa, no curto prazo, a comprometer toda a engrenagem do capitalismo, aplicando-se aqui uma velha e bem conhecida lei da economia: o exagerado excesso de demanda contrapõe-se à pífia oferta de oportunidades de trabalho. E no Brasil, a cada ano, este contingente aumenta a base de 1 milhão a 1,5 milhão de jovens que abarcam ao mercado de trabalho.
Para atenuar-se o problema do desemprego, segundo o professor Carlos Ivan Simonsem Leal, a economia teria que crescer a uma taxa de 6% ao ano, mais do que o triplo previsto pelo IPEA. E, conforme declaração recente do ministro da Fazenda, Pedro Malan, pronunciada em plena Wall Street a um grupo de investidores, a previsão de crescimento para o Brasil neste ano não passará da casa dos 2,2%.
O sistema capitalista tem se mostrado incapaz e ineficiente de absorver toda esta massa de desempregados, o que - e veja-se que isto não é nenhuma profecia apocalíptica - poderá causar o colapso do capitalismo.
O desemprego traz como consequência danosa para toda a sociedade a marginalização involuntária do trabalhador, pois sem o trabalho o cidadão precisa aplicar táticas de sobrevivência, o que acaba por excluí-lo dos serviços básicos sociais garantidos por lei, acarretando o aumento de criminalidade, um dos efeitos mais severos e evidentes para a sociedade.
A busca contínua no aperfeiçoamento da qualificação profissional, bem como investimentos maciços em estruturas de base, principalmente no que tange a educação, com certeza é uma das alternativas que podem contribuir significativamente para atenuar o problema do desemprego.
- MARCO AURÉLIO PIRES GARCIA é economista em Londrina

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