Técnicos das Nações Unidas insistem em afirmar que o desemprego será o mais grave problema do terceiro milênio, ao menos neste início de novo tempo. Já os especialistas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) dizem que um terço da população economicamente ativa, em todo o mundo, está desempregada. Na América Latina, a taxa de pessoas que não conseguem trabalho anda em torno de 8%.
Este é um tempo em que se cruzam duas novidades que, até agora, têm resultado em desemprego crescente: tecnologia e globalização. As empresas empregam cada vez mais recursos tecnológicos que vão substituindo o homem em atividades básicas. O computador ainda não pensa, precisa do cérebro humano para lhe conformar uma lógica, no entanto tem mais velocidade, precisão e eficiência do que qualquer operário, por mais capacitado que seja.
Um bom exemplo são as montadoras de automóveis no Brasil. Na década de 70, todas ostentavam, com orgulho, números de empregados que ultrapassavam a milhares. Houve empresa que chegou a ter dezessete mil empregados. As novas montadoras, que estão chegando ao país pela via da globalização, oferecem uma quantidade mínima de empregos. Há empresas capacitadas a produzir oitenta mil veículos/ano com menos de mil empregados.
O desemprego deixou de ser circunstancial. É um fenômeno estrutural, ou seja, o modelo econômico produz menos vagas de trabalho do que a sociedade deseja, merece ou precisa. Essa situação remonta ao chamado capitalismo selvagem, que se desenhou no final da Segunda Guerra Mundial, época em que os capitalistas norte-americanos começaram a investir fora de seu próprio país. Os regimes comunistas tinham uma preocupação social marcada, ofereciam emprego, escola e saúde, embora não concedessem liberdade.
O capitalismo fez as concessões necessárias, naquele período. Houve alguma preocupação social e o próprio governo dos Estados Unidos, por intermédio de suas muitas agências, realizou investimentos a fundo perdido em diversos locais do mundo, inclusive no Nordeste brasileiro. Depois que a União Soviética escorreu pelo ralo da história e a confrontação leste-oeste terminou, o capitalismo e os capitalistas ganharam uma avenida à sua frente para realizar investimentos. As empresas procuram mercados onde a mão-de-obra abundante e aí instalam o maior número de equipamentos dotados de alta tecnologia. A produção passa a ter custo muito baixo e a preocupação social inexiste.
Políticos e técnicos de países emergentes ou subdesenvolvidos como o Brasil precisam rediscutir a questão do emprego. É importante perceber que a abertura de novas vagas de trabalho não é mais função direta dos investimentos. Ao contrário, as empresas recentemente privatizadas no Brasil estão se caracterizando pelo desemprego em massa. E após as demissões extinguem as vagas. O problema está em que o cruzamento de tecnologia com globalização vem proporcionando aos países menos desenvolvidos a escassa oportunidade de participar da economia internacional pelo caminho do desemprego. As empresas lucram e faturam muito nos mercados emergentes, mas protegem o seu próprio mercado. Nunca a economia norte-americana foi tão próspera. Lá não há desemprego. Aqui, sim. É a face trágica da globalização.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília.

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