Desemprego
José Luiz Schuchovski
O índice de desemprego na Grande São Paulo atingiu o nível mais elevado em todos os tempos: quase 19% da população economicamente ativa. Um em cada cinco trabalhadores paulistanos está no olho da rua. Esta pesquisa reflete, com pequenas variações, a situação em todo o país.
Os economistas atribuem o desemprego crescente à crise asiática, à globalização, ao ‘‘El Ni¤o’’ e à evolução tecnológica. Têm certa razão, mas a maioria deles esquece de outras causas tão ou mais importantes que as mencionadas. Não dizem que o aumento do desemprego decorre do drástico arrefecimento do nível de atividade de setores que, por sua natureza, acolhem a maior parte dos trabalhadores iniciantes e de menor qualificação profissional: a construção civil e a agropecuária.
Por conta da continuada retração nestes dois importantes segmentos produtivos, a taxa de desemprego subiu às alturas. O mais grave é que ela poderá ser ainda maior se não forem tomadas, de imediato, medidas para refreá-la.
Não se deve entender como catastrofismo o alerta de que, a continuar a grave situação decorrente da falta de trabalho, poderão faltar mercados a saquear, terras a invadir e policiais para deter a onda de violência que assusta os habitantes das cidades e do campo.
Sob a justificativa de manter estabilizada a moeda - meta a ser continuamente perseguida, mas que não pode e nem deve ser, como vem sendo, considerada um fim em si mesma -, o governo federal e, por extensão, os estados e municípios se submetem ao tacão ditatorial dos condutores da política econômica. Para a maioria das autoridades monetárias, a falta de emprego ou de condição de vida digna é apenas um detalhe de uma equação econometricamente cínica onde a constante é o alheamento e a insensibilidade. Não levam em conta que a economia é uma ciência cujos fundamentos matemáticos só se convalidam se demarcados dentro de uma visão social e humana. Com uma política econômica que incentiva a especulação e a agiotagem, em vez da produção, e com taxas de juros alçadas na estratosfera, não há quem, em boas condições, possa ou queira empregar, produzir e investir.
O governo garganteia que tem, em reservas de caixa, mais de R$ 70 bilhões. Este saldo recorde que tende a se elevar mais é fruto de uma derrama fiscal e tributária como nunca se viu. Na mesma proporção desta sovinice governamental, que retém nos cofres públicos um dinheiro que deveria estar sendo aplicado para melhorar a condição de vida do povo, crescem os índices de criminalidade, marginalidade, miséria e fome.
A estabilidade econômica é condição fundamental para o crescimento do País. Manter as conquistas do Plano Real, no entanto, não significa, de nenhuma forma, restringir investimentos em áreas onde a escassez de recursos tem o poder de reunir, na mesma página de jornal, noticiários econômicos e policiais.
A produção agrícola, neste último ano, superou 80 milhões de toneladas e gerou uma receita para o Brasil de alguns bilhões de dólares. Este volume - de grãos e de divisas - pode ser, facilmente, duplicado em prazo relativamente curto, desde que se dê, de fato, estímulo aos produtores rurais.
Na área habitacional, para citar apenas a parte da construção civil que mais rapidamente responde aos investimentos e que melhor irradia os recursos, o governo federal não tem feito praticamente nada a não ser sonegar verbas que legalmente deveriam se destinar para este fim.
Falta de vontade política do presidente? Não. Creio, isto sim, em falta de conveniente assessoramento.
Nunca entendi bem a razão de ser de obras como as pirâmides, a muralha da China e outras de portes semelhantes. Todas, à primeira vista, têm um não sei quê de coisa supérflua. Como não confio em primeira vista, tenho boas razões para imaginar que elas possam ter sido idealizadas, não só pela vaidade dos faraós e imperadores, e, sim, pela mais absoluta necessidade de propiciar trabalho às pessoas.
Não acho que o nosso presidente, um sociólogo catedrático, mesmo com os seus compreensíveis e até naturais escorregões de vaidade, deva estar pensando em obras megalômanas como pirâmides e muralhas para marcar a sua gestão. No entanto, uma coisa é absolutamente certa: ele seria lembrado para todo o sempre como um governante inesquecível se, como marco piramidal, resolvesse, à revelia de alguns de seus assessores, dar início a uma obra majestosa: a construção de 5 milhões de pequenos e discretos palácios, como apenas quatro aposentos, para abrigar mais de 20 milhões de seres reais que têm voto, mas não têm vez.
Quanto aos grandes muros, eles hoje não têm serventia alguma. Em seu lugar, também como obra magnífica, bastaria determinar a imediata aplicação de verbas na agropecuária nacional em volume capaz de permitir que nos primeiros anos do novo milênio se pudesse ver uma produção agrícola de 160 milhões de toneladas.
Ambas as medidas dariam menos desgaste financeiro, social e político do distributivismo assistencialista que, remendo em pano esgarçado, não resolve o problema.
Com tais obras, quem precisaria de pirâmides e grandes muralhas para se perpetuar na memória nacional?
Ave, Fernandus...
- JOSÉ LUIZ SCHUCHOVSKI é arquiteto, construtor e ex-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção - CBIC

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