Desejos de mulher
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sexta-feira, 07 de março de 2003
Amelio Dall'Agnol 
Sigmund Freud, depois de mergulhar durante quase 30 anos na alma feminina, concluiu que não conseguira desvendá-la. Persistia-lhe a dúvida: o que efetivamente uma mulher quer?
Sem a mínima pretensão de superar o pai da psicanálise, num assunto tão da competência dele, arrisco-me dizer que não compartilho da mesma dúvida: o que toda a mulher quer é reconhecimento pelos seus valores e respeito pelos seus direitos: de parte, principalmente, da sociedade. Quando isso não é possível, ela, muito a contragosto, aceita jóias, perfumes, roupas e viagens. Muitas, de preferência.
As sociedades que nos antecederam trataram mal as suas mulheres, considerando-as seres humanos incapazes ou inferiores. Embora muita coisa tenha mudado, ainda persiste o atraso em algumas sociedades, onde esposas e filhas são servas de seus próprios pais ou maridos, que lhes negam o direito de mostrar o próprio rosto, de educar-se, de escolher a roupa que gostariam de vestir e os lugares por onde gostariam de andar. Não têm direito ao voto e nem ao prazer. São proibidas de mostrar-se e de exibir-se, tão do instinto feminino. ''Não quero ser rica, prefiro ser maravilhosa'', dizia Marilyn Monroe, traduzindo bem esse sentimento.
Em memória ao primeiro levante feminino contra a exploração e a opressão às mulheres, ocorrida em 8 de março de 1857, a ONU instituiu essa data como o Dia Internacional da Mulher (serão do homem os restantes 364 dias do ano?). As protagonistas dessa primeira greve feminina 129 operárias de uma tecelagem de Nova Iorque pagaram com a própria vida a audácia de reivindicar direitos. Mas que direitos, devem ter-se perguntado os homens da época? As mulheres quase não tinham direitos um século atrás.
A condição de subalterna a que foi submetida na hierarquia de uma sociedade dominada pelo homem, tudo tem a ver com o desigual acesso da mulher aos mecanismos de capacitação; a educação, principalmente. Onde e quando essas oportunidades lhes foram disponibilizadas, a mulher avançou rapidamente e está ameaçando o posto de trabalho de muitos executivos homens.
No Brasil, 91% dos cargos executivos ainda pertencem ao homem, contra apenas 50% em sociedades mais evoluídas. Essa diferença também é encontrada dentro dos países: regiões menos desenvolvidas tendem a ter os piores índices. O Norte e Nordeste do Brasil, por exemplo, apresentam índices piores do que o Sul e Sudeste.
Apesar das conquistas já alcançadas na busca de direitos iguais entre os sexos, muito ainda precisa ser feito para acabar com preconceitos que ainda persistem contra a mulher. A divisão dos trabalhos domésticos entre marido e mulher que exercem atividades fora do lar, por exemplo, está desigual, condenando a mulher a uma dupla jornada de trabalho na maioria dos lares.
Mesmo assim, os homens que se cuidem. A mulher não está desistindo de conquistar cada vez mais espaços no mercado de trabalho, ocupando cargos que o homem julgava exclusivos. E pior, estão levando vantagens na disputa pelas profissões e empregos mais cobiçados. Apesar dos quatro milhões de neurônios a mais que se diz o homem possuir, eles não parecem fazer falta à mulher. Talvez porque esses neurônios adicionais sejam puro lixo biológico, não desempenhando função alguma.
O desafio que ainda permanece e precisa ser vencido pela mulher, é sua participação, em igualdade de condições, dos núcleos do poder, desde onde terão mais condições de conquistar na prática, o que está escrito no papel: direitos iguais para homens e mulheres.
AMELIO DALL'AGNOL é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa em Londrina


