DESCONSTRUINDO OS HERÓIS - História oficial é recontada
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sábado, 04 de agosto de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Os livros didáticos de história não são mais os mesmos, e a juventude já colhe os frutos de uma reflexão crítica sobre a construção política brasileira. A afirmação é da doutora em Ciências Sociais Eliane Superti, que falou à FOLHA sobre a importância da participação da sociedade na condução dos rumos do País.
Que avaliação a senhora faz sobre o ensino de História no Brasil?
Tivemos um grande avanço. No período da ditadura militar, o ensino foi muito marcado pelas imposições políticas, existia um cerceamento do que podia ser dito em sala de aula, discutido com os alunos. A história que ficava naquele período era a oficial, a que se queria contar a respeito do Brasil e dos políticos. O ensino médio sofreu bastante com isso. Com o fim da ditadura e o avanço das discussões políticas sobre o Estado, a história foi repensada e isso chegou ao livro didático. Hoje você tem a possibilidade de perceber os atores que efetivamente participaram da construção política. A juventude que vivencia este novo ensino é mais consciente, tem uma reflexão mais profunda sobre o que foi a história política do nosso País.
A história dita ''oficial'' sumiu dos livros didáticos ou ainda há um resquício?
Existe, mas cada vez menos. As universidades puderam reprensar os livros didáticos e os professores conseguiram maior liberdade para escrever e pesquisar. Existe um respeito muito maior com a investigação dos fatos, e isso é muito importante. Heróis que na história oficial sempre foram exaltados começam a ser vistos nas suas dimensões reais. Foram homens importantes, que fizeram seu papel naquele momento, mas não eram heróis. Esse é um grande problema da nossa história: a gente vive buscando salvadores da pátria quando, na verdade, a construção política, social e econômica da nação é feita pela sociedade como um todo.
Essa visão mais controversa dos fatos nos livros já tem resultados?
Com certeza, porque instiga uma visão crítica fundamental para que se forme uma consciência cidadã, do verdadeiro papel de cada um de nós no fazer histórico do País e também a formação de uma mentalidade capaz de permitir efetiva participação política. Se você não se reconhece como sujeito que faz história, não pode mudá-la. Por isso é tão importante este resgate da reflexão crítica.
Nós tivemos em Londrina o caso de um pai de aluno de escola pública que pediu o recolhimento dos livros de história alegrando conteúdo racista contra os negros. É um exemplo de mudança nessa reflexão crítica?
É um exemplo sim. Acho interessante a manifestação de um pai, porque mostra que a sociedade não é mais letárgica a esse tipo de coisa. Ela reage. A gente gosta de propagar que no Brasil existe democracia racial, mas isso não é verdade. Nosso racismo é extremamente escondido, mas fica na cultura, na forma como a gente contexualiza a participação do negro na sociedade, e isso também é estimulado pelos livros.
A senhora considera a população brasileira despolitizada de uma maneira geral?
As classes populares tradicionalmente foram mantidas fora da discussão política. Durante todo período do império, da colônia, a classe trabalhadora estava vinculada à escravidão, e foi alijada do processo político de construção do estado. Isto é uma marca pesada para as nossas classes populares, e traz um medo da coisa política. É difícil dizer que as classes populares não se manifestam, porque existe uma tradição de deixar essas classes excluídas. Então cobrar que elas se manifestem de uma hora para outra não é algo justo. A sociedade tem se movimentado. Estamos construindo ainda uma cultura democrática. Pode não ser a melhor democracia do mundo, mas é a que estamos conseguindo construir. Esse processo significa que nós temos a possibilidade de romper com esse alijamento político que as classes populares foram submetidas. Se queremos um fazer político diferenciado, ele começa pela discussão, pela reflexão sobre o nosso papel em fazer a história do país.


