Descompasso tropical
Descompasso tropical
Renan Calheiros
O Banco Central norte-americano, numa atitude preventiva para conter a pressão inflacionária nos Estados Unidos, aumentou sua taxa de juros de 6 para 6,5% ao ano. Foi a maior elevação dos juros desde 1991 e o acréscimo de 0,5 pontos não chegou a surpreender o sensível mercado financeiro internacional, mas certamente terá efeitos nocivos nos chamados emergentes, onde se inclui toda América Latina.
No Brasil os desdobramentos são previsíveis: o aumento dos juros irá provocar uma retração do fluxo de capitais externos e irá pressionar uma maior desvalorização do Real. Isso significa que o país continua vulnerável e dependente do capital externo. Para honrar suas dívidas o país precisará atrair os recursos pagando mais juros e a importação ficará mais cara, comprometendo ainda mais as contas públicas.
Simultaneamente ao aumento dos juros nos EUA, o governo brasileiro anunciou o maior déficit em transações correntes com o exterior, que atingiu 4,6% do PIB. Este déficit cresce com o pagamento das dívidas brasileiras e com o aumento da remessa de lucros para o exterior. Ou seja, ao contrário do que proclama o FMI e os nossos economistas, o país continua aumentando o endividamento para pagar suas contas com um imenso sacrifício para o cidadão brasileiro.
Para o Brasil, caso continuemos seguindo o atual modelo econômico, isso representa que o dinheiro ficará mais caro nossos juros básicos são de 18,5% ao ano, mas o crédito direto, o consumidor sabe, é de 13 a 15% ao mês. As metas de crescimento serão afetadas e, consequentemente, não serão criados novos empregos, a renda não será distribuída, os salários não serão aumentados e tão pouco será atenuada a miséria nacional.
As notícias ruins para os messiânicos da economia brasileira não se esgotam aí. O preço do barril do petróleo chegou novamente aos US$ 30, fator que certamente pressiona a inflação. Consequência da política econômica, que ignora o social, são os infames índices sócio-econômicos do Brasil. O último relatório da Comissão Econômica para a América Latina aponta o crescimento da pobreza em 12% nos últimos dois anos. Isso quer dizer que a pobreza, que vitimava 200 milhões de pessoas, agora flagela 224 milhões no continente.
Nessa perspectiva, de privilegiar o mercado externo em detrimento do povo brasileiro, fica incompatível a prática da equipe econômica com o novo discurso social do ministro da Fazenda, adotado na última semana. Mas, como dizia Rui Barbosa, as palavras convencem, mas são os exemplos que arrastam.
- RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça





