O filme Tróia por certo deve sensibilizar a todos que, em tempos passados, como eu, ou mesmo em tempos recentes, se deliciaram com as páginas da Ilíada. É claro que o filme carrega nas tintas em muitas coisas, inventa e conta, num certo sentido, uma outra história, diferente da de Homero. Mas é um belo filme. E lá está Aquiles com sua memorável coragem, acalentando em seu peito o desejo de glória, não da mera lembrança póstuma que provavelmente habitará a mente de seus filhos e netos. O seu desejo, e nisso o filme é enfático, é o desejo da imortalidade alcançada pela glória duradoura, que ultrapassa gerações e atinge um futuro indefinido, um futuro em que ainda deveria ecoar os feitos deste bravo soldado amante da vida. Sim, amante da vida, da mortalidade. Pois, se Aquiles quer ser imortal, ele quer ser imortal ao modo grego. Ele não alimenta o desejo de imortalidade da alma como querem os cristãos. Aquiles quer deixar claro, e faz isso num diálogo com sua presa de guerra, que o fato de sermos mortais é algo extraordinário, maravilhoso. Daí que são os deuses que devem invejar os mortais.
Lembrando isso, não consigo afastar de minha mente a figura de Hannah Arendt. Nos escritos de Hannah Arendt, em especial ''A condição Humana'', fica clara a sua simpatia por Aquiles. O exemplo de Aquiles seria esclarecedor do individualismo envolvido em toda ação, bem como do anseio de auto-revelação, de auto-exibição na competição entre os homens. A escolha do herói grego Aquiles como exemplo do anseio de auto-exibição está vinculada, no pensamento de Hannah Arendt, à valorização da esfera política.
A pólis grega, diz Hannah Arendt, tinha como ''principal objetivo fazer do extraordinário uma ocorrência comum e cotidiana. A segunda função da pólis era remediar a futilidade da ação e do discurso; pois não era grande a possibilidade de que um ato digno de fama fosse realmente lembrado e imortalizado''.
Já na era moderna ''o que importa não é a imortalidade da vida, mas o fato de que a vida é o bem supremo''. Mas, conforme Hannah Arendt, tendo sempre como referência a pólis grega, a política jamais deveria visar a simples manutenção da vida. Em termos aristotélicos, pode-se dizer que ela persegue a ''boa vida'', um modo especial de viver, fundado no desejo de interagir com outros mediante palavras e ações.
Em se tratando da elevação da vida ao status de bem supremo, deve-se registrar a influência do cristianismo em nossa cultura. Ele afirma a vida como um valor sacrossanto. Tem-se, assim, a inutilidade da luta pela imortalidade, visto ser a própria vida imortal. A imortalidade da pessoa humana, atribuída pelo cristianismo, levou a um natural aumento da alienação extraterrena. Com isso, argumenta com razão Hannah Arendt, valorizou-se ainda mais a importância da vida na terra, pois esta seria o primeiro estágio da vida eterna. Ou seja, permanecer vivo passou a ser um dever sagrado.
Assim, em nosso tempo, a vida como um bem supremo parece ter se tornado uma verdade axiomática, como se fosse lógico e natural considerar a vida como o mais alto bem. Ao argumentar contra isso, ou seja, ao defender o amor à mortalidade como base para o desejo de imortalidade, acho que Aquiles dá uma bela lição não apenas a sua amada presa de guerra, mas a todos nós. De fato, a vida não é o maior de todos os bens. E não há nessa tese incompatibilidade com o fato de amarmos a vida. Com efeito, a vida é condição para atingirmos, seja a glória póstuma, seja talvez apenas para alcançarmos a ''eudaimonia'' como queria outro grego que não lutou contra os troianos, mas deixou para a posteridade feitos memoráveis, dentre os quais a ''Ética a Nicômaco''.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia da UEL

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