DESCASO - Governo não se importa com educação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de setembro de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Os desafios do educador são muitos. Diariamente, ele precisa lidar com o desinteresse dos alunos e com a carência de materiais disponíveis nas escolas públicas. Inúmeras vezes a sensação é de desânimo.
Para o psicoterapeuta Ivan Capelatto, que vai ministrar palestra amanhã em Londrina, os educadores desanimam porque sentem que não têm autonomia e nem autoridade suficiente para cuidar da educação. ''Eles têm que ser reféns de um planejamento pedagógico''.
Qual o perfil e o papel do educador do século XXI?
O século XXI é marcado pela perda da equação ensino-aprendizagem, pelos excessos cometidos na desfiguração das instituições-mães, pelo excesso do virtual e pela substituição do bom pelo belo, do inteligente pelo esperto e do bem pelo materialismo. O educador precisa ser resgatado como o cuidador que se coloca entre a família, o social, o cultural, a escola e o aluno. Sua função é mostrar o aprender como aquisição de um bem pessoal, prazeroso e que serve à vida. O educador deve ouvir o educando, suas angústias e suas dificuldades pessoais.
E como lidar com o desinteresse dos alunos? Como motivá-los?
Os professores precisam aproximar-se dos alunos, ouvi-los, mostrar que há prazer no aprender. A boa e velha pedagogia, principalmente a afetiva, que aproxima professor e aluno num objetivo comum, numa atividade comum, ainda é a melhor ''tecnologia''.
Qual a importância do educador preparar as suas aulas, se atualizar e levar para a sala de aula atividades diferenciadas? Percebe-se que muitos professores ainda são tradicionais e outros estão desanimados com a educação...
O professor-educador preocupa-se com os alunos, percebe suas angústias e ouve as queixas dos educandos. Eu tenho incentivado professores-educadores a tirar um tempo de suas aulas para falar dos eventos externos: pedofilia, política, brigas de trânsito, dinâmicas do namoro, de família. O desânimo dos professores acontece porque eles não têm autonomia e nem autoridade suficiente para cuidar da educação. Eles têm que ser ensinantes reféns de um planejamento pedagógico que nem sempre leva em conta o que os alunos sentem.
Existe uma carência de materiais em muitas escolas públicas, o que dificulta aulas mais dinâmicas e interativas. O senhor acha que falta investimento do governo? É papel da comunidade escolar contribuir nesse sentido?
O governo não se importa e nem vai se importar com a educação. Quem quer gente pensando? Não é melhor manter todo mundo ''embolsado''? Eu tenho, em minha cidade (Campinas), me envolvido num belo e gigante projeto em que empresários e empresas resolveram assumir as escolas do Estado e da Prefeitura. Estamos conversando e dando cursos e vamos ajudar os professores a se tornarem cuidadores/educadores.
O professor, a fim de ser respeitado, deve ter uma postura autoritária ou é possível manter laços de amizade? Como dosar amizade e autoridade?
A autoridade do professor/educador é conseguida pelo cuidado: aproximação, limites e presença. Um aluno agressivo, repulsivo, bagunceiro e sem desejo, na verdade, está pedindo ajuda. Se um professor se torna educador, saberá se aproximar, suportar as agressões e dar limites. Essa aproximação pró-ativa é o princípio da educação.
Mas o aumento dos casos de agressão (física e verbal) faz com que muitos professores sintam receio de se aproximar...
Esse aumento de agressividade se deve à angústia que parte dos dois lados da equação professor-aluno: ambos estão tensos, sem saber o que e como realizar seu papel. A agressividade é a filha do medo. Estamos indo para a escola com medo, da mesma forma que estamos indo para o trabalho, para o trânsito, para a rua. Mas, a perda da identidade do professor e a falta do papel claro do aluno geram uma dúvida sobre o que ambos estão fazendo juntos e quem manda em quem.
É preciso resgatar o professor/educador e mostrar ao aluno seu lugar mais claro: um protagonista e não um passivo ouvinte.
Nesse contexto, qual a importância do educador manter uma boa relação com a família dos educandos?
Eu sempre sou a favor de a escola manter os pais por perto. Esse laço aumenta a força dos limites e dos cuidados.
Serviço:
A palestra ''O Educador e sua função no Século XXI'', será realizada amanhã às 20h no Teatro Marista. Informações pelo (43) 3328-0080.


