Desastres de Itaipu - Aparecido da Silva Martins
Desastres de Itaipu
Aparecido da Silva Martins
Além de pouco comum para um tucano abandonar o seu confortável muro é, no mínimo, surpreendente, a notícia veiculada na imprensa de que o diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, defendeu ninho alheio ao fazer críticas abertas ao deputado federal Moacir Micheletto, em virtude deste, que é deputado eleito pelo PMDB paranaense, ter votado a favor das mudanças no Código Florestal Brasileiro, que reduzem de 80% para 50% a área de reserva legal da Amazônia.
Não deixa de ter razão Euclides Scalco quando faz críticas à atitude do referido parlamentar paranaense, utilizando-se, para isso, de sinônimos como lamentável, deplorável e repulsivo ao classificar a posição adotada por Micheletto, já que a atitude do nobre deputado, e daqueles seus pares que com ele compartilharam a mesma posição, é realmente desprovida de bom senso.
Contudo, ao criticar a atitude alheia, esqueceu o nobre diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, os grandes desastres ambientais causados pela própria hidrelétrica da qual ele é um dos responsáveis. Esqueceu ele que, em novembro do ano passado, em pleno desenvolvimento da piracema, ou seja, na época em que os peixes estavam em total processo de reprodução, visando o aumento na produção de energia elétrica, a qual é comercializada em dólares, os dirigentes da Itaipu Binacional promoveram a baixa no nível do seu reservatório, diminuindo 5 metros do seu nível normal, atitude essa que foi a causadora da morte de muitas matrizes e de muitos alevinos, isso sem falar na enorme quantidade de moluscos mortos em virtude do ocorrido.
O que é pior nisso tudo, é que, além de fazer vistas grossas ao desastre ambiental gerado pelo rebaixamento do reservatório de Itaipu, relutando em aceitar o ocorrido e assumir as responsabilidades em decorrência das consequências advindas de tal procedimento, a exemplo do que fez a Petrobras quando provocou aquele grande desastre ecológico na Baía de Guanabara, os dirigentes da chamada maior usina hidrelétrica do mundo recusam-se sequer a discutir o assunto, tentando esconder o óbvio, ao afirmar que não ocorreu nenhum prejuízo ambiental com o funcionamento da usina e que o lago é monitorado frequentemente para evitar danos ao meio ambiente.
Todavia, mesmo não sendo admitido pela diretoria da Itaipu Binacional e por seus técnicos, o dano ambiental provocado e que, segundo os seus responsáveis, acontece anualmente, sempre no mesmo período, vem causando incalculáveis prejuízos à ictiofauna, que tem como consequência imediata a miséria pela qual estão passando as famílias daqueles que sobrevivem da pesca profissional no Lago de Itaipu.
Tornando-se real, no caso das críticas de Scalco a Micheletto, o velho e popular adágio faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, o chefe do Posto do Ibama em Cascavel, Jorge Pegoraro, contestou a versão dos representantes da hidrelétrica, garantindo que o impacto ambiental causado pelo rebaixamento do lago é inevitável e que a morte de peixes é uma consequência previsível.
Reforçando a tese de Pegoraro, o engenheiro de pesca e responsável pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) em Toledo, Taciano Maranhão, segundo notícia veiculada na imprensa, ao falar sobre a atual situação dos pescadores à beira do lago, diz que outra questão muito importante é que não é só a estiagem que causou o desaparecimento dos peixes, mas também, e principalmente, a geração de energia pela Itaipu que causou esse impacto ambiental.
Além dos representantes do Ibama e do IAP na região apontando o dano ambiental, o qual já algum tempo vem sendo alegado na Justiça, em uma ação ordinária que as colônias de pesca movem contra Itaipu Binacional, onde, entre outras coisas, requerem que Itaipu apresente Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental de sua atividade, recentemente, em decorrência da ação ordinária, autos nº 98.1012000-1, proposta pela Colônia de Pescadores Z-13 de Guaíra (PR), o procurador da República em Foz do Iguaçu, através do Ofício MPF/FI nº 280/2.000, endereçado ao diretor de Coordenação da Itaipu Binacional, solicitou, dentre outras providências, que a hidrelétrica apresente os Estudos de Impacto Ambiental decorrentes do rebaixamento do reservatório.
Destarte, não há como negar o óbvio. Porém, como é muito mais fácil apontar o erro alheio do que corrigir os seus próprios, a população é obrigada a assistir à pose de Euclides Scalco, que é a grande causadora de danos ambientais na região do seu reservatório.
Resta ao cidadão, atingido por tais danos, a expectativa e a crença de que Euclides Scalco, como político de renome nacional e como defensor do meio ambiente que é, após tomar conhecimento da presente, ao invés de se sentir ofendido, reconheça os danos ambientais causados com a construção e funcionamento da usina hidrelétrica, e determine a sua equipe técnica a elaboração do tão necessário Estudo de Impacto Ambiental.
- APARECIDO DA SILVA MARTINS é advogado das colônias de Pesca em Guaíra





