Desarmar o espírito
Joel Samways Neto
Seguindo sua marcha processual civilizatória, a toque de crises, o Brasil casuísta volta seus olhos outra vez para a violência. Violência que sempre houve, apenas era mais esporádica, menos evidente. Agora aparenta algo gigantesco porque aumentou o número de habitantes, aumentou a escassez, aumentou o egoísmo das elites, aumentou o oportunismo populista dos governantes, aumentou a guerra pelos índices de audiência na mídia (esta, aliás, parece-me uma das causas mais importantes para o agravamento da angústia social).
O horror que tomou conta do País, semana passada, deu o tom da balada nacional. Durante cerca de quatro horas, as rádios e televisões acompanharam a tentativa de sequestro ocorrida no Rio de Janeiro. Um cidadão, visivelmente drogado, manteve várias pessoas sob mira de revólver, dentro de um ônibus do transporte coletivo. Repórteres transmitiam, em sons e imagens, ao vivo, no calor dos acontecimentos, tudo o que se passava. O cerco policial, as negociações, a movimentação dentro do veículo... ‘‘O bandido está apontando a arma para a cabeça de uma moça...’’, ‘‘O bandido cobriu uma das reféns com um pano azul e fez um disparo...’’, ‘‘A vítima está caída, não se sabe se está ferida ou morta...’’ [soube-se, mais tarde, que ela estava bem]. Se houvesse um medidor de angústia social ligado naquela hora, certamente registraria índices altíssimos. Deprimiu até o presidente da República.
Imediatamente após o trágico desfecho do acontecimento, uma avalancha de opiniões de populares, pronunciamentos oficiais, comentários de especialistas, invadiu todos os meios de comunicação, recheando pautas por pelo menos cinco dias. Novamente, todas as soluções foram revisitadas: a falta de pessoal, de treinamento, de equipamento, de recursos financeiros para a polícia; a falta de pôr o Exército nas ruas; a falta de emprego; a falta de vergonha-na-cara... Muita conversa, muito debate, muito discurso, muito cinismo; pouca ação concreta. Enfim, o de costume na ressaca após o fato. Foi assim depois das famosas chacinas, da Candelária (da qual, aliás, o indigitado sequestrador era sobrevivente), da Favela do Vidigal, ou de truculentas blitzes da PM, como a da Favela Naval.
O diferencial foi a circunstância de o ocorrido haver emergido em meio à construção da política nacional de segurança pública. Proposta do governo federal – na verdade, um programa de integração de forças – para combater o crime, organizado, do atacado, e desorganizado, do varejo. Então a idéia tomou um tônico energizante. Retomaram, inclusive, assuntos polêmicos como esse do desarmamento civil, ora projeto de lei tramitando no Congresso.
Francamente, fazer leis até que é fácil. Uma boa proposta, um bom argumento, um bom momento, uma distração do lobby, e a lei sai. Essa do desarmamento civil já está em ‘‘ponto de bala’’. O slogan é adequado (‘‘Quem tem arma ou é policial ou é bandido’’), o momento é oportuno (ainda mais se a mídia continuar a transmitir crimes, direto, ao vivo, a cores), a sociedade farta de ser agredida. Resta saber se o barulho todo não é apenas para cacifar as pressões da indústria armamentista, a maior do mundo.
Difícil mesmo é mudar a mentalidade das pessoas. Não ouviram o terrível depoimento daquele militar, deputado federal, com cara de mau, dizendo que o horror perpetrado pelo bandido do lotação poderia ter sido evitado desde a chacina da Candelária? Desgraçadamente, essa opinião tem sido acompanhada por muita gente, que a mídia, ao invés de conscientizar, só encheu de mais ódio. De nada adianta tirar as armas das pessoas se elas não desarmarem o espírito. Há pessoas que andam desarmadas, porém permanentemente engatilhadas de intolerância, preconceito, desprezo pelo semelhante. Elas apenas e tão-somente não atiram, porque não têm arma. Mas alimentam de violência a mentalidade coletiva – e os incautos, portadores de armas, é que disparam.
Penso que o bandido do lotação não foi morto, dentro daquele camburão, apenas por quatro ou cinco policiais militares. Os policiais apenas consumaram o desejo de milhares de radiouvintes e telespectadores, que gostariam de ver o bandido linchado, morto e esquartejado em praça pública.
Esse desejo de matar, que brota do íntimo das pessoas, não é lei que vai desarmar, mas a educação que sensibiliza para a vida.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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