Desapegar-se de Jesus - Walmor Macarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de abril de 1999
Walmor Macarini 
Jesus é a figura predominante no mundo ocidental, e um terço da humanidade diz acreditar nele, segundo estudo publicado neste jornal, na Sexta-Feira Santa. Mas, ao que se deduz pelos exemplos que vemos, os que acreditam mais o exaltam do que o seguem; apegam-se a ele até com fanatismo, mas praticam muito pouco seus ensinamentos. Jesus não disse, em ocasião alguma, que deveríamos nos apegar a ele a ponto de passar-lhe toda a responsabilidade e nos esquecermos de caminhar junto e seguir os seus passos. Se entre nós, hoje, ele estivesse, como quando aqui esteve, e assistisse ao que os denominados cristãos praticam em seu nome, Jesus suplicaria que nos desapegássemos dele e assumíssemos nossas próprias responsabilidades.
Ele nunca afirmou que era O Salvador e que veio para nos salvar, mas nos fez ver que a salvação estava em nós próprios. Sua missão terrena foi, fundamentalmente, nos ensinar que somos uma fraternidade e que carregamos em nós a centelha divina, portanto tão iguais e tão capazes quanto ele, segundo suas próprias palavras. Este tão precioso ensinamento, certamente o mais significativo de seu ministério terreno, consubstanciou-se na frase o que eu faço vós também o fareis, e ainda melhor, mas nenhuma importância o homem deu a ele, preferindo afundar-se nas idéias de autolimitação, e assim chegou ao final do segundo milênio. Trôpego, desencontrado consigo mesmo, desconectado de sua origem divina e sem haver experimentado as potencialidades de que sempre foi possuidor e tanto ressaltadas pelo Mestre. Ao praticar as curas, nunca Jesus disse eu te curei, mas a tua fé te curou; em outras palavras, o teu poder. Ele nos demonstrava, com suas palavras, que podíamos todas as coisas que ele podia.
Um dos lamentos mais recentes de Jesus - encontrável entre tantas manifestações e revelações dele e de outros hierarcas celestiais, e que por si sós já bastariam para se codificar um Novíssimo Testamento - é que um grande erro da humanidade, nestes últimos dois mil anos, foi haver preferido admitir que só ele, Jesus, era dotado de poder crístico, quando, no seu dizer, o que ele fez em sua forma carnal não foram milagres, mas o exercício de um atributo inerente a cada um de nós. Ou ele não o teria dito, nem naquele tempo e nem agora.
Jesus evidencia também - e isto historicamente se conhece - que antes dele, muitos outros já haviam conseguido alcançar o completo domínio do estado crístico. E que, por seu livre arbítrio, o homem não permitiu a expansão de sua própria perfeição.
Também nos revela que a segunda vinda de Cristo deve ser entendida como o reacender da luz crística sobre a Terra, quando o homem então compreenderá sua grandiosa dimensão divina (dele, homem), até aqui não admitida por ele próprio, ademais sufocada pelos pregadores dos templos, estes também encobertos pelas sombras do desconhecimento.
Desapegar-se de Jesus quer dizer não nos apoiarmos nele com o comodismo de quem se apóia numa muleta. Porque ele nos acena com o caminho mas não move nossos passos se não estamos dispostos a caminhar. Portanto, não nos carregará nas costas se amolecemos o corpo... Porque esta não é sua função, nem ele disse que seria. Não esperemos, portanto, que Jesus nos salve. Só nós próprios nos salvamos. E para isto, com toda certeza, podemos contar com a ajuda dele. Nos salvar, seria ele interferir em nosso livre arbítrio, e Jesus não irá infringir essa lei. Porque é glorioso destino do homem, mais cedo ou mais tarde, chegar por seus próprios passos ao caminho da salvação, salvo que já está em sua essência, entenda-se a sua derradeira camada, a da plena pureza.
Mesmo as curas, Jesus não as operava por sua decisão, mas indagava dos enfermos e paralíticos que o procuravam: Queres mesmo ser curado? E ante a resposta afirmativa, que era o consentimento, apenas respondia: A tua fé te curou.
Se queremos que Jesus nos salve, temos que permitir. E permissão, neste caso, significa um estado de plenitude de fé, aquela mesma dos enfermos que o procuravam. E nós, temos tamanha fé em nosso anseio de salvação? E o que é a fé? A fé é a consciência de que é possível. E a consciência dessa possibilidade é a manifestação do nosso estado de poder. Aquele contido em Jesus, e que ele dizia contido também em nós. A tua fé te curou... Ou, o teu poder, o teu poder de operar o milagre.
Os passos da humanidade, no apagar das luzes do segundo milênio - e tivemos dois longos mil anos para aprender! - não são os passos que Jesus, abnegadamente, nos ensinou.
Jesus não nos levará a lugar nenhum se não queremos ir.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina.


