DESÂNIMO - Sociedade está pessimista quanto ao futuro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de fevereiro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Os últimos resultados de pesquisa anual realizada pelo World Economic Forum apontam a falta de confiança da próxima geração viver em um mundo mais seguro. Cerca de 50% dos entrevistados está pessimista. Com alguns traços interessantes: habitantes dos países mais ricos são os menos otimistas. Em linhas gerais, apenas 25% dos entrevistados, em 60 países, mostram-se otimistas - foram ouvidas 61,6 mil pessoas.
Quando o assunto é política, a coisa piora. A associação dos políticos a imagem negativa está aumentando ano a ano. A América Latina, por exemplo, é a que pior avalia seus políticos.
Em entrevista à FOLHA, Ileizi Fiorelli, doutora em Sociologia e professora titular da Universidade Estadual de Londrina (UEL), salienta que a lógica de mercado regida pelas listas de ''mais ricos'' e ''mais famosos'' leva ao quadro pessimista.
Por as pessoas estão incrédulas em relação ao futuro?
Primeiramente, devido à dificuldade de se constituir espaços públicos, não só em países da América Latina, como em grande parte dos países do mundo, ou seja, espaços em que os indivíduos reconheçam-se enquanto tais e reconheçam os outros indivíduos e as outras culturas como legítimos, mesmo sendo diferentes.
Como os estudos das Ciências Sociais apresentam o Brasil nesse quadro?
No Brasil, os estudos mostram que o aspecto privado sempre dominou o aspecto público. Nós, brasileiros, temos dificuldades de reconhecer que as instituições estatais não pertencem aos políticos ou a quem está no Governo. Escolas, praças, meios de transporte, hospitais e postos de saúde pertencem - ou deveriam pertencer - a todos nós. Esse sentimento de pertencer a um espaço público, no Brasil, é um pouco pior porque a política se constituiu a partir dos coronéis, então as prefeituras e os governos eram uma extensão do poder dos grandes fazendeiros. Isso é terrível.
E há como reverter esse processo?
Felizmente, como dizem os grandes pensadores, somos ''animais políticos''. Ao mesmo tempo em que podemos nos enveredar por soluções violentas e individualistas, podemos optar pelo diálogo, somos capazes de fazer isso. No Brasil já temos sinais.
Seriam os movimentos políticos?
Não sou pessimista. Temos organizações não-governamentais e sindicatos de diferentes categorias, bem como diferentes instituições trabalhando e nadando contra a maré no sentido de constituir esses espaços. Os jovens, muitas vezes criticados, têm muitos de seus representantes engajados em diferentes problemáticas, como a ecologia. Os partidos políticos não cativam, mas movimentos ligados às questões de gênero, da sexualidade, entre outros tópicos, são atrativos. Imagine só termos, no Brasil, uma mobilização como a Parada Gay. Em outros países, como a Jamaica, o homossexualismo ainda é proibido. No Brasil, o grau de reconhecimento desses indivíduos como legítimos cresceu muito. Exemplos como esses e, num contexto local, as manifestações pela paz, em Londrina, ano passado, mostram uma vontade de se quebrar essa visão voltada ao próprio umbigo.
Quais as forças que temos atuando negativamente, no panorama atual?
São várias. Há as forças que criam a segregação. Um exemplo claro são os condomínios de luxo, pequenas comunidades fechadas, ruins para a socialização das crianças, que só convivem em determinada comunidade e classe social.
A propósito, a pesquisa do World Economic Forum trouxe maior incidência da falta de confiança em relação ao futuro entre os países mais ricos. Quanto maior a economia, maior o pessimismo?
Sim. Muitos sociólogos trazem o processo de globalização junto com o crescimento e fortalecimento do capitalismo. E não no sentido da democracia. Um capitalismo muito forte é incompatível com a democracia. Da década de 1970 para cá, com o fortalecimento da idéia de mercado, o ''guerreiro'', o ''vencedor'' e a ética da competitividade, típicos dos filmes de Hollywood, tiveram vez. Quem não figura na lista dos mais ricos, mais famosos, uma vez que não há lugar para todos, apresenta-se pessimista. Nem todos serão Bill Gates, Beyoncé ou Ronaldinho.
Países da América Latina foram os que pior avaliaram seus políticos. Há explicação?Há um processo de deterioramento das instituições públicas em toda a América Latina que se fortaleceu com os políticos neoliberais. Com a diminuição do Estado, com o mercado regulando tudo, a política virou um negócio.
Vamos continuar pessimistas?
Viveremos dias difíceis ainda. Temos a China, que não está apresentando um modelo novo, de desenvolvimento sustentável, e nem preservando as relações políticas. A maioria dos estudos mostram a sociedade chinesa caminhando para o padrão da classe média norte-americana, de consumir. E de deixar as bicicletas de lado. A sociedade baseada na compra do automóvel, do celular e de demais parafernálias não nos traz bem-estar.


