Recente relatório do ESDAR, divisão do Banco Mundial encarregada de apoiar o desenvolvimento e adoção de tecnologia na agricultura, aponta um paradoxo preocupante para todos os interessados no desenvolvimento. É o de que, apesar de todo o sucesso demonstrado pela pesquisa agrícola em trazer soluções baseadas na ciência e tecnologia para problemas da produção agrícola, e da evidência cabal que os investimentos nesse setor proporcionam altas taxas de retorno econômico, a pesquisa agrícola enfrenta presentemente uma crise de natureza global, porém agravada nos países em desenvolvimento.
Aqui no Paraná esses desafios também estão dramaticamente presentes. Mais que isso, o novo perfil que se deseja para a economia do Estado passa pela perfeita integração entre as produções agrícola e agroindustrial, objetivando-se a agregação de valores à produção estadual e a geração de empregos mais qualificados. Isto só será possível pelo aperfeiçoamento da integração entre tecnologias de produção e de transformação.
O órgão oficial de pesquisa do Paraná tem dado respostas à altura nesse sentido. Apesar das dificuldades com que se tem defrontado, o Instituto Agroeconômico do Paraná (Iapar) - que completa em junho deste ano um quarto de século - fechou um balanço institucional de 1996 contabilizando avanços que evidenciam a relevância do papel da pesquisa para o desenvolvimento paranaense, tal como no passado.
Dos 191 projetos de pesquisa em execução, envolvendo um total de 419 experimentos localizados em mais da metade dos municípios paranaenses, cobrindo assim todas as situações agroecológicas do Paraná, foram concluídos sessenta.
Nesse balanço quali-quantitativo identificaram-se pelo menos 58 resultados concretos, tecnologias essas que, adicionadas em 1996 ao patrimônio dos paranaenses, oferecem respostas aos problemas de produção ou abrem novas oportunidades de investimentos. Os destaques econômicos são: a nova cafeicultura do Paraná, com a tecnologia do café adensado do Iapar, que já soma hoje mais de 70 milhões de mudas desse modelo; o zoneamento agrícola, para organizar a produção e o abastecimento e reduzir os riscos de perdas, já beneficiando as culturas de trigo, feijão, algodão e milho; o trigo competitivo, com as novas variedades Iapar 53, 60 e 78 de alto desempenho agronômico e qualidade industrial superior, com total aceitação pela indústria moageira, ocupando mais de 25% da área plantada; no feijão, o Paraná é destaque nacional, com as variedades resistentes ao vírus do mosaico dourado, viabilizando-se a produção com as mais de 2 mil sacas de semente básicas produzidas; a tecnologia do plantio direto na pequena propriedade, de grande efeito econômico e ambiental, e já lançada nacionalmente; o sistema de alerta às geadas, que possibilita a tomada de medidas preventivas; os estudos que apontaram a viabilidade da redução da idade de abate para 22 a 24 meses de animais recriados a pasto, fundamentado a implantação do programa Novilho Precoce; o Simepar, projeto tecnológico de vanguarda no campo do monitoramento e previsão meteorológica, que irá beneficiar desde a produtividade até a qualidade de vida da população.

O Iapar realizou em
1996 mais de 40 mil
análises de solo e
laboratoriais


Ainda, na prestação de serviços, o instituto, tal como no passado, realizou em 1996 mais de 40 mil análises de solo e laboratoriais; forneceu 600 toneladas de sementes básicas e 150 mil mudas/borbulhas de várias espécies; lançou e distribuiu publicações técnicas e promoveu centenas de eventos de transferência de tecnologia (dias-de-campo, cursos, seminários e treinamentos), atingindo a maior parte dos profissionais do setor público e privado que atuam no agronegócio estadual. Em 1996, o Iapar foi ainda organizador de seis eventos técnico-científicos de caráter nacional e internacional que colocaram o Paraná como centro dos debates científicos sobre plantio direto, agricultura sustentável, milho e sorgo, melhoramento de batata, mirtáceas, horticultura tropical e fruticultura.
Diante do desempenho e dos serviços que a pesquisa presta à sociedade paranaense, cabem alguns questionamentos ao setor público e, principalmente, a essa sociedade: o Estado deve continuar a apoiar o agronegócio paranaense e de que forma? A geração de inovações tecnológicas para esse setor é prioritária dentro da atual política de desenvolvimento para o Paraná? Como continuar tendo na tecnologia um caminho de viabilização da competitividade do agronegócio?
A clareza da sociedade sobre esses pontos é hoje essencial para a própria definição da sustentabilidade institucional do Iapar. Nascido de demandas claramente explicitas do setor produtivo (a Sociedade Rural do Paraná foi a principal responsável pela criação do instituto em Londrina, no início dos anos 70), na época, como entidade moderna e diferenciada, rompia com os padrões organizacionais vigentes no setor público (equipes multidisciplinares, estrutura matricial, operação por projetos, vinculação com o setor produtivo, etc). Passado um quarto de século, o Iapar não escapa todavia dos males decorrentes da crise global noticiada no relatório do Banco Mundial, nem tampouco das dificuldades locais. O órgão requer hoje uma readequação do modelo institucional e organizacional, decorrente das necessidades impostas pelas mudanças no ambiente, que afetam de forma importante e em especial esse tipo de instituição que lida com conhecimento e inovação.
Propostas já existem nesse sentido, como a adoção do modelo de ‘‘organização social’’, que permite a preservação do caráter público (mas não estatal) da instituição, a atuação junto ao mercado de tecnologia do agronegócio, e tipos inovadores de relacionamentos com o governo do Estado, através de ‘‘contratos de gestão’’, que garantem para o Estado a definição política de prioridades e a avaliação do desempenho institucional, ao lado de assegurar também a participação da sociedade e a coerência com as demandas tecnológicas do setor agropecuário e agroindustrial paranaense.
São idéias novas, é certo, mas administráveis num contexto de Estado que sempre buscou inovar. A reformulação institucional do Iapar compõe um processo com certeza tão inovativo quanto foi o da própria criação do órgão na década de 70.
Na concretização dessa mudança, o Paraná estará demonstrando que realiza uma gestão transformadora também na administração, na busca de novo perfil do setor público, tanto quanto alcança novo perfil econômico, ambos direcionados para o objetivo maior da qualidade de vida de todos os paranaenses.

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