Desafios intelectuais para professores e professoras
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de outubro de 2002
Alvori Ahlert 
Por estes dias a sociedade está sendo lembrada que existem professores e professoras. Comemora-se, com homenagens ou com recesso escolar, o Dia do Professor. Mas será que a sociedade ainda valoriza a função de professor? O que este professor ainda tem a dizer para a sociedade? Qual ainda é o efetivo valor desta função que possui tão longa história humana? Que a sociedade mesma responda sobre o que tem feito com estes profissionais! Que ela se pergunte quanto aos políticos que tem eleito para conduzir as grandes questões pertinentes a educação, seja em nível municipal, ou em estadual e nacional!
Neste espaço quero, pois, dirigir minhas indagações a nós mesmos, professores e professoras. Como estamos comemorando o nosso dia? Como temos nos encarado? Como uma classe de trabalhadores e trabalhadoras com uma missão a desenvolver, ou como um bando de individualistas egocêntricos e narcisistas? Temos assumido nosso lugar de intelectuais na sociedade onde nos encontramos, ou temos aceitado medíocre e passivamente o poder que nos esmaga e impõe programas, estruturas e dominações ideológicas sobre o povo e, por extensão, sobre nós mesmos, reproduzindo uma sociedade desumana e excludente?
Para refletir sobre estas questões quero compartilhar com os professores e as professoras alguns pensamentos de uma belíssima palestra do Prof. Dr. Milton Santos intitulada ''O professor como intelectual na sociedade contemporânea'', publicada nos Anais do IX ENDIPE, 1998. Este grande pensador, que nos deixou uma obra em ações educativas e escritos muito vivos e cada vez mais atuais, nos lembra que vivemos cada vez mais sob a tirania do dinheiro e da informação em rede que tem gerado pobreza, exclusão, miséria. A técnica tem conduzido para o que se opõe à vida matematizando a existência e desenvolvendo um pensamento meramente calculante.
Diante disso, ele nos desafia a retomarmos a busca pela liberdade e pela verdade, o que é nosso destino como educadores. ''Quanto mais o nosso trabalho for livre, mais educaremos para a cidadania. Quanto mais o nosso trabalho for acorrentado, mais estaremos produzindo individualidades débeis'', diz Santos.
Urge resgatarmos a utopia em nossos planejamentos, em nossas ações pedagógicas, acreditando que um outro mundo é possível. Precisamos assumir nosso lugar de intelectuais e para isso pesquisar e trabalhar. Esse trabalho de intelectuais e educadores deve ser fundado no futuro. Intelectuais olham para o futuro. Não buscam o aplauso, diz Santos, mas unicamente a verdade. Por isso são ''inadministráveis''. São fermento de uma verdadeira e intensa atividade de pesquisa-ensino-pesquisa. Jamais renunciam à crítica, pois renunciar à crítica significaria permitir o assassinato interno da democracia. Significa, num esforço de interpretar, desvendar a realidade. Significa ajudar e oferecer à comunidade educativa a enfrentar as situações da realidade.
Entretanto, este trabalho como intelectuais é arriscado. ''Quem teme perigos'', diz Santos, ''deve renunciar à tarefa de ensinar'', pois é preciso enfrentar as grandes questões da realidade de exclusão que decorrem de macrofenômenos políticos e econômicos e dos microfenômenos de ordem familiar e social.
Daí que, como intelectuais, precisamos tornar-nos indivíduos sem sermos individualistas. Para Santos, o indivíduo forte busca aperfeiçoar-se diariamente. Isso significa tornar-se consciente do mundo, do seu lugar, da sua comunidade, da sociedade, de si mesmo. Indivíduos fortes não recusam opiniões opostas, mas constroem outras e novas opiniões a partir do embate de idéias, pois ''a crítica acelera a produção do pensamento e isso se torna produção coletiva do pensamento'', diz o referido autor.
Somente isso nos permitirá recuperar a dignidade e o respeito que nos é devido, garantindo-nos salários dignos, horas de estudo e discussão da prática pedagógica e um planejamento coletivo de nossas ações.
ALVORI AHLERT é professor-assistente da Unioeste (Universidade do Oeste do Paraná)


