O presidente Fernando Henrique Cardoso sempre surpreende quando fala de adversários ou aliados. Num seminário do BID, em Fortaleza, sobre Desafio Democrático na América, ele fez improviso tão imprudente que, inebriado pelo que dizia, acabou atirando no próprio pé.
Eis um esporte em que FHC é campeoníssimo: o autodisparo ao alvo! Mencionando os ‘‘avanços’’ de seu governo, em termos de saúde, FHC planou nas alturas e se esqueceu da dengue (mal que já matou quase cem brasileiros); da demissão de seis mil mata-mosquitos no Rio feita pelo ex-ministro José Serra; e do abandono da rede hospitalar pública, do que também é responsável esse velho amigo, candidato à sua sucessão.
FHC citou cifras sobre redução da pobreza no Brasil, já contestadas, aliás, pelo BID e outras entidades. Condenou as oligarquias brasileiras, com as quais governou, e que, além de lhe proporcionarem uma reeleição presidencial, contra nossas tradições político-jurídicas, o ajudaram, sem tugir nem mugir, a vender parte de nosso patrimônio físico a preços vis, empobrecendo ainda mais o Brasil.
Entre tantas afirmações questionáveis feitas no louvor à competência de Serra, e levado talvez pela lógica do mau tratamento oficial em relação aos problemas da saúde, FHC propôs até ‘‘uma injeção de ânimo em nossos partidos políticos’’.
Que é isso? O animado PMDB governista dobra-se aos desejos de FHC e às medidas anti-sociais de sua equipe econômica. O próprio presidente diz que só quer ‘‘o apoio pefelista para governar, no interesse do Brasil’’, misturando interesses do governo com os do país e de seu povo. FHC pede migalhas do FMI, pois desistiu de mudar a ordem mundial ditada por essa instituição que, hoje, considera insensível, mas com a qual fez muitos maus negócios para os brasileiros.
Apoiado pela plutocracia paulista e oligarcas estaduais, aliados de sete anos, FHC, como Jacó, parece querer outros sete anos, sem Raquel nem Lia, mas com Serra, o louvador dos feitos de seu governo: ‘‘Se fosse fácil, outros já teriam feito’’.
Fácil foi endividar o país; dar dinheiro do BNDES à Globocabo; obstar candidaturas à Presidência; ouvir, em silêncio, agente dos EUA afirmar que o Brasil tem de ‘‘reduzir sua corrupção’’. É preciso mudar. Para Serra, defensor da lei de patentes, isso talvez seja dispensável. Mudanças, porém, são o desafio que urge ao país enfrentar, por essenciais à democracia social e ao futuro livre de nosso povo.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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