Desafios da luta contra a fome
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segunda-feira, 03 de fevereiro de 2003
Sergio Amoroso 
A fome, flagelo superlativo da dívida social brasileira, somente poderá ser combatida com eficácia, como preconiza o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio de ampla mobilização nacional, envolvendo os setores público e privado, pois as soluções não são simples. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), há no Brasil cerca de 21 milhões de pessoas sem o suficiente para comer e a desnutrição está diminuindo; a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, ONG fundada por Betinho no início dos anos 90, utiliza base de dados do IBGE para argumentar que há 50 milhões de famintos no País e que o problema está se agravando.
Embora haja sensível diferença entre os números, fator que, às vezes, gera polêmicas públicas entre os dois organismos, ambas as versões indicam a extrema gravidade do problema e as dificuldades para sua solução.
Em seu discurso de posse, dia 1º de janeiro último, o presidente Lula abordou de forma contundente o problema da fome. Em outro trecho, falou sobre alguns aspectos da filosofia que seu governo adotará na chamada diplomacia econômica, referindo-se às negociações, de maneira firme, no sentido de derrubar subsídios agrícolas e barreiras protecionistas dos países ricos, que têm sérias consequências nas nações emergentes e subdesenvolvidas. Estas distorções do comércio exterior estão diretamente ligadas à questão da fome.
Ou seja, se há divergências relativas ao número de pessoas desnutridas, parece existir um claro consenso sobre algumas das causas do problema. O Brasil e as nações emergentes não podem continuar, como ocorre desde o período colonial, a serem meros exportadores de commodities a preços aviltados, comprando produtos de maior valor agregado. Temos de participar de forma mais soberana do comércio exterior, vendendo nossos produtos industrializados e agropecuários a preços dignos, sem barreiras tributárias e não-tributárias e sem a pressão de subsídios injustificados.
No plano interno, também há imensa lição de casa a ser feita, no sentido de estimular o nível de atividades e distribuir renda, fatores fundamentais no combate à fome. As reformas tributária e trabalhista, desonerando os setores produtivos, e a da Previdência, consolidando o equilíbrio fiscal do Estado, são tarefas essenciais, bem como a queda das taxas de juros. É preciso que a Nação, acima de questões ideológicas, contribua para que as metas sejam cumpridas.
Paralelamente, o exercício da responsabilidade social por parte das empresas privadas, institutos e fundações tem de ser mantido e multiplicado, inclusive em ações e programas conjuntos com organismos governamentais. Ou seja, a luta contra a fome é ampla, árdua e complexa, mas tem de ser vencida, pois a democratização de oportunidades e a justiça social são fatores condicionantes à construção de um Brasil próspero e desenvolvido.
SERGIO AMOROSO é presidente do Grupo Orsa e instituidor da Fundação Orsa, responsável pelo Programa Nacional de Combate à Desnutrição Infantil


