Não se estranha que algumas pessoas ainda retenham na memória a imagem da enfermagem como profissão de segunda classe. Afinal, não é fácil fazer tábua rasa de uma longa história de preconceitos, cuja origem não é nosso propósito lembrar aqui; como também não há registro, num extenso período, de esforço político significativo para conferir merecido destaque à figura do profissional de enfermagem como categoria profissional.
É a essas pessoas que gostaríamos de propor uma curiosa experiência: tentem atualizar, se ainda não o fizeram, seu conceito sobre a matéria. E ficarão surpresas ao verificarem que a realidade atualmente é bem outra. Os enfermeiros se profissionalizaram na melhor e mais ampla acepção do termo. Hoje eles são mais de 800 mil, inscritos no seu Conselho Federal, em todo o País. Buscam aperfeiçoamento permanente, frequentando cursos no Brasil e especializações, mestrado e doutorado. Promovem grandes congressos. Alcançaram uma posição da qual têm motivos para se orgulharem. O retraimento de outros tempos deu lugar a uma postura mais altiva e voluntariosa.
Recusam-se a assumir a posição de satélites gravitando em torno de outros profissionais, pois aprenderam que têm luz própria. Essa tomada de consciência teve não poucos reflexos. A profissão ganhou espaços mais nobres e generosos na mídia, menos pelas razões convencionais e mais como reconhecimento por sua presença institucional e pela importância de seu trabalho na sociedade.
Nada, obviamente, acontece por acaso. Por trás dessas e de outras conquistas há um trabalho, desenvolvido inclusive em nível internacional, do qual já se colhem bons frutos. Um exemplo: pela primeira vez, em 100 anos, o Brasil elegeu representante para a Junta Diretiva do Conselho Internacional de Enfermagem, com sede em Genebra, na pessoa de Dulce Dirclar Hut Bais, presidente do Coren de Mato Grosso do Sul.
Foi durante o 22º Congresso Quadrienal, realizado em Copenhague, entre 10 e 15 de junho deste ano. Dulce foi eleita pela Área 6, que engloba a América Latina, e sua indicação atendeu a importante objetivo estratégico: a candidatura do Brasil para sede do 24º Congresso Internacional, em 2009, já que o evento de 2005 terá lugar em Taiwan, cujos representantes no conselho já se comprometeram a apoiar nossa candidatura.
Escusado dizer que, além de colocar a enfermagem brasileira num alto patamar de reconhecimento mundial, a realização aqui do congresso, ao trazer de 15 a 20 mil pessoas de todo o mundo, irá importar em considerável ingresso de divisas, para não mencionar outra bandeira do conselho a inclusão do português entre as línguas oficiais do Conselho Internacional, fator inequívoco de prestígio e de outras vantagens relacionadas à expansão da fronteira linguística.
Aliás, a visão do futuro grandioso da enfermagem brasileira no mundo dispensa exercícios de futurologia. A caminho de atingir a faixa de 1 milhão de inscritos no conselho, o Brasil já é a quinta força mundial de trabalho nessa área, reforçando a tendência de uma participação cada vez mais marcante nas decisões que delineiam os caminhos da atividade em âmbito mundial.
Se o futuro parece risonho para os enfermeiros na dimensão planetária, internamente os obstáculos são numerosos. Mas nem os boicotes, nem as ameaças veladas, nem as pedras de tropeço de certos corporativismos colocados no seu caminho arrefecem o ânimo de uma categoria que aprendeu a conhecer por si mesma a força que tem e não está disposta a ceder na busca de suas prerrogativas e direitos.
Com um detalhe: procura fazê-lo de forma integral e ética, o que dá sentido mais pleno ao que ousamos chamar de Revolução da Enfermagem. No plano cultural, por exemplo, o conselho contratou a museóloga Solange Godoy para elaborar o projeto de criação do museu com o nome da patronesse da enfermagem brasileira, Ana Néry, a ser instalado no bairro do Pelourinho, em Salvador. E a literatura será enriquecida com o lançamento, durante o 4º Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem (de 1º a 5 de outubro, em São Paulo), da coleção Anjos de Branco, com romances inéditos de escritores como Antonio Olinto, Arnaldo Niskier, José Louzeiro, Raquel de Queiroz, Domício Proença Filho, Demócrito Azevedo, Marcos Santarrita, Helena Parente Cunha e Carlos Nejar, todos tendo como tema central a profissão de enfermagem.
O Cofen pretende investir o que for possível para levar adiante esses projetos. Já estava na hora de essa profissão secular, cujos bravos integrantes são os únicos a permanecer 24 horas por dia ao lado de um enfermo, ser homenageada. Isto é o mínimo que merece até pelas injustiças que tem sofrido é o mínimo que pretendemos, no exercício de nossa presidência, fazer por ela.


- GILBERTO LINHARES, do Rio de Janeiro, é presidente do Cofen

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