Desafios da agropecuária do Sul
Roque G. Annes TomasiniOs Estados da região Sul não são uma economia agrícola fechada, tanto pela necessidade de exportar o excedente de produção, quanto pela liberdade de entrada de produtos agrícolas de outras áreas do Brasil ou de outros países. Afinal, quem são os competidores da agricultura gaúcha, catarinense e parte da paranaense? Os grandes concorrentes são, e serão ainda mais, os demais Estados brasileiros que podem estabelecer matrizes de produção técnica e economicamente mais eficientes. Não se pode impedir a livre circulação de produtos nacionais, salvo por problemas sanitários.
Onde está o antigo ‘‘celeiro do Brasil’’? Dificilmente o Rio Grande do Sul voltará a ocupar esta posição, uma vez que outros Estados aumentaram sua participação na produção nacional. Os novos celeiros do Brasil estão nos Estados para os quais emigraram milhares de agricultores - particularmente gaúchos - nas últimas décadas.
Foram estes agricultores e seus descendentes os responsáveis pela rápida expansão das áreas com soja nos Estados do Paraná, do Mato Grosso do Sul, do Mato Grosso, de Goiás, do Tocantins, da Bahia, e do Maranhão. Recentemente, os Estados do Acre, Rondônia e Roraima passaram a aumentar sua produção de soja, sendo que, em 1998, já foram exportadas 550 mil toneladas pela Hidrovia Madeira-Amazonas. O custo do frete é outro fator com o qual a soja gaúcha deverá lutar: de Itacoatiara (Pará) ao Porto de Roterdam (Holanda) é 30% menos que o custo da soja exportada via Porto de Rio Grande até Roterdam.
O Rio Grande do Sul perdeu a liderança de produtor de commodities como soja, milho e trigo. Perdeu parte do seu poder agrícola em nível nacional. As pequenas propriedades da região Sul, e até mesmo as médias, não terão como competir com os menores custos unitários de produção destes cereais plantados em grandes áreas nestas novas fronteiras agrícolas.
Por enquanto, a região Sul, em comparação com algumas destas novas fronteiras, ainda tem como vantagem comparativa uma boa infra-estrutura de estradas e de armazenagem. Vantagem que dificilmente se manterá a longo prazo. Isto porque, além das pressões naturais de crescimento local, os agricultores que estão abrindo estas novas áreas à soja e ao progresso são originários do Sul do País, levando e adaptando as tecnologias que deram impulso inicial à soja no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Diante deste quadro de perda de competitividade das áreas pioneiras da agricultura de grãos no Sul do Brasil, fica a pergunta: o que fazer? A resposta tem por base uma análise do que esta região tem e que as novas fronteiras não têm, ou seja, das nossas vantagens comparativas. As duas mais evidentes são o clima e a geração de tecnologia agrícola.
Se estamos perdendo competitividade na produção de grãos de verão, como o soja e o milho, vamos retomar a produção de produtos da estação fria, no inverno, como o trigo e a cevada. Por certo temos problemas de mercado, mas estes são passíveis de resolução a médio e longo prazo. O que não se pode mudar é o clima.
Além destas atividades, na área animal a produção leiteira é outra atividade que já representa e poderá representar, mais ainda, importante fonte de geração de renda aos produtores que dispõem de pouca área, mas que podem, via tecnologia e compra de insumos de terceiros, serem transformados em grandes produtores.
Enfim, somente resta o caminho de continuar a ser um importante produtor via a constante atualização das tecnologias de produção, conjugado com programa de crédito de investimento que permita mudar a matriz produtiva agrícola da região Sul.
Embora tardiamente, as lideranças agrícolas e políticas do Sul do Brasil vão descobrir que o ciclo da soja esgotou. Que a agropecuária tradicional envelheceu. Que é preciso mudar a matriz de produção e que mais do que o tamanho da propriedade, vai ser essencial o ‘‘tamanho da tecnologia’’.
O Sul do País é rico em instituições geradoras de tecnologias agrícolas e talvez seja esta a base que deve ser aperfeiçoada se quisermos nos manter como uma região próspera. O que não podemos aceitar é que no meio de tanta riqueza e de tanto potencial produtivo, continue a aumentar o número de municípios em que a maior parte da renda é a representada pelos vencimentos dos aposentados rurais.
- ROQUE G. ANNES TOMASINI é engenheiro agrônomo da Embrapa em Passo Fundo (RS)

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