Desafio que transcende o apagão
O blecaute de terça-feira precipita uma discussão que acentua a tendência para a busca de outras fontes de energia, diante dos problemas de gestão da energia hidrelétrica já caracterizados. Uma parcela de 62% do crescimento da energia elétrica no Brasil, previsto de 2009 até 2013, será com usinas térmicas, o que deve encarecer a energia e causar mais problemas ao meio ambiente.
Um analista do setor privado levanta a questão. Mas dados da própria Aneel parecem referendar a preocupação e ainda mostram que há atrasos em 19 usinas termelétricas com energia vendida para 2010 e 2011 em leilões do governo. (Reportagem na página 7: Após apagão, País deve ter energia mais cara).
A pressão pelo aumento da disponibilidade de energia está condicionada ao crescimento do PIB no período, projetado em 5% em 2010 e de 4% ao ano até 2013. Metas factíveis.
O que se espera da nova agenda sobre fontes de energia é que as discussões mantenham o foco na parte técnica da matriz energética, sem derivar para a questão eleitoral. A ressaca do apagão ainda não foi curada. O ranço do apagão não pode sobreviver sob pena de contaminar um tema de longo prazo, que tem que ser discutido à luz do conhecimento técnico.
Adversidades climáticas, ou eventos climáticos, como dizem os técnicos, são fatores imponderáveis sobre os quais o homem não exerce poder de mudanças. Mas, para se eximir totalmente de culpa - e porque agiu na defensiva eleitoral - o governo saiu atirando para todos os lados. Adotou a teoria do raio e fechou a questão.
A preocupação eleitoral transformou um problema sério - cuja origem não se pode debitar ao governo - em festival de acusações, que misturou desinformações com autoritarismo. Afinal, o ministro Lobão - que não domina o assunto e tem dificuldade de se manifestar - foi arrogante ao desautorizar o parecer de um técnico do INPE. Decretou o encerramento do assunto. Ele pode?
Antes rolou outra leviandade: o ministro da Justiça considerou o episódio um microincidente - ou algo que o valha. Agrediu a inteligência dos brasileiros.
Que essa demonstração de imaturidade e arrogância fiquem fora das discussões de projetos de longo prazo.





