Desafio Momo: delegado alerta pais para risco na internet
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2019
Erika Gonçalves - Grupo Folha 

A recente polêmica envolvendo supostos vídeos com a figura da escultura japonesa Momo que ensinariam crianças a cometerem suicídio e o ataque ocorrido na escola de Suzano, em São Paulo, levantaram novamente a questão sobre o uso da internet por crianças e adolescentes. Terreno ainda desconhecido para muitos pais, a rede daria fácil acesso a informações sobre armas, ataques em outras escolas e facilitaria a reunião e troca de ideias sobre atividades ilícitas. Deep web e dark web, só para citar alguns termos, seriam realmente um local onde criminosos circulariam tranquilamente?
Delegado titular do Nuciber (Núcleo de Combate aos Ciber Crimes) em Curitiba, Demétrius Gonzaga de Oliveira, diz que há muita lenda urbana sobre o assunto e que várias dessas atividades são planejadas na chamada internet comum, apenas com a proteção de senhas. Sendo necessária a autorização judicial para interceptar tais comunicações, a polícia conta que colaboração dos pais e da comunidade para evitar novas tragédias.
Ouça a Entrevsta
Foi registrada no Nuciber alguma reclamação formal em relação à Momo?
Não. Sempre ficamos atentos aos fatos aqui, estamos acompanhando e ninguém trouxe reclamações a respeito.
O YouTube afirmou que não seria possível que alguém conseguisse hackear um canal e inserir imagens da boneca nos vídeos. A plataforma é mesmo segura ou realmente pode ocorrer de algum canal ser hackeado?
Eu sempre coloco que essa questão da segurança está ligada ao próprio usuário. Se ele tem um equipamento que ele não preza pela questão da segurança, obviamente que todas as ações desse usuário podem eventualmente vir a ser capturadas por pessoas que tenham um pouco mais de conhecimento. Essas são técnicas antigas, quando se fazia uma invasão no seu computador o sujeito já procurava arquivos específicos que continham as senhas. Se você tem arquivos que permitem certa vulnerabilidade o sujeito consegue implantar um dispositivo em que ele consegue acompanhar inclusive a sua digitação. Então não colocaria assim como tão impossível. Se por parte do próprio YouTube existe um sistema de segurança tão reforçado assim eu acho ótimo, no entanto não podemos deixar nunca de considerar que a vulnerabilidade maior não está no serviço como o YouTube ou outro, mas nos próprios usuários que não raras vezes acabam acessando espaços que permitem a instalação de softwares maliciosos ou até o próprio controle do computador, quando não investem em questões de segurança.
Uma pessoa colocou um vídeo no Twitter com a Momo dizendo que ele teria sido postado no YouTube, o que contraria a versão oficial. A discussão é que devido ao pânico criado pelos pais, outras pessoas estariam se aproveitando e criando vídeos que nunca circularam realmente na internet. Seria possível um leigo descobrir se esse vídeo realmente foi inserido no YouTube ou foi uma criação posterior?
O ideal é que alguém que tenha conhecimento técnico faça uma aferição, a partir de uma comparação com a produção original e essa posterior que aparece a disposição de outros usuários. Obviamente que existem técnicas de inserção, de colocar material que não constava do vídeo original, mas um usuário que é um desconhecedor, um leigo, se ele não tiver como referência o vídeo original não vai saber diferenciar uma coisa da outra, por isso que é importante sempre que detectar uma situação dessa natureza comunicar a polícia para que ela possa fazer as devidas verificações. Nós atendemos situações de que determinado sujeito é identificado como praticando a utilização de uma conexão para um determinado fato que acaba se caracterizando como um crime.
"Nós detectamos crimes em que o criminoso praticava utilizando uma determinada comunidade só de madrugada"
Amanhã ou depois se eu chego nesse sujeito tenho que fazer uma análise forense computacional a partir do Instituto de Criminalística para saber se o computador dele não foi utilizado como um zumbi, ou seja, alguém invadiu, assumiu o poder de administração sobre o equipamento e a partir do equipamento dessa nova vítima que tem o computador vulnerável, praticou outras ações delituosas deixando como pista o próprio IP de utilização da conexão que foi feita para a prática do crime. São todos dados técnicos que a autoridade policial e os técnicos que estão trabalhando ao redor disso têm que ter conhecimento para poder aprofundar a investigação. De nada adianta ser autoridade policial se não tem esse conhecimento também, por isso que precisamos contar inclusive com a experiência dos peritos do Instituto de Criminalística no sentido de identificar e fazer as análises forenses computacionais em cima de vídeos ou de equipamentos que tenham por ventura sido utilizados para prática dos crimes.
A orientação no caso de dúvidas é buscar as autoridades policiais?
Exatamente. E tem que ser rápido porque a sazonalidade é bastante comum nesse tipo de crime. Existem alguns dispositivos, algumas ferramentas, inclusive a própria deep web que os criminosos se valem para tentar burlar e dificultar essas ações. Nós detectamos crimes em que o criminoso praticava utilizando uma determinada comunidade só de madrugada. Durante o dia você acessava e não via nada de anormal. Durante a madrugada ele entrava, fazia a transformação daquele material e dali a uma hora ou duas ele removia aquele material e voltava ao que estava antes, o que criava uma certa dificuldade na questão da própria produção de provas. Era intermitente, sazonal, por isso a importância de sempre que alguém tiver conhecimento, imediatamente dê conhecimento à polícia e se possível, produza uma prova, dê print screen, tente baixar o vídeo, tente identificar para poder denunciar e mandar os links para que a polícia tenha esse material.
Vários crimes são planejados na deep web e na dark weeb e aparentemente são níveis da internet aos quais nem todos têm acesso e que exigem um certo conhecimento técnico. Por outro lado, vemos que no caso de Suzano, os jovens teriam trocado algumas informações em fóruns nesses locais. Esse níveis não são tão secretos assim ou os adolescentes estão com conhecimento bastante avançado para chegar nessas camadas e ter acesso a esse tipo de informação e contato com criminosos?
Não. Precisamos desmistificar certas coisas. A deep web é sim uma linha de atuação dos criminosos mas não é outra internet, é a mesma internet que tem uma configuração diferenciada. Quando o sujeito quer criar alguma coisa através de um perfil na deep web, ele só não permite que o site seja indexado. Sempre que alguém cria um site, faz com uma configuração que permita que através de um buscador, como o Google, você consiga encontrar a página, a ideia é divulgar essa página. No caso da deep web, usando a mesma internet, a configuração é distinta. Ou seja, a configuração que permite que você seja localizado pelo indexador é retirada. Ela não vai ser encontrada com um navegador comum, vai precisar de um navegador específico para poder acessar, localizar e mesmo assim você tem que ter um certo roteiro para caminhar dentro daquilo.
"Quando o sujeito quer criar alguma coisa através de um perfil na deep web, ele só não permite que o site seja indexado"
Tem muito lixo lá, porque a internet é muito antiga, muito lixo foi ficando acumulado e na própria deep web quem acessa vai encontrar, por exemplo, perfis que foram criados e abandonados há mais de duas décadas, coisas de todo tipo de criminoso, de psicopata, ou de usuários comuns mesmo, estudantes, acadêmicos que deixaram esse material. Mas há muita lenda urbana sobre isso, inclusive sobre a atuação de hackers. Todo mundo acha bonito dizer que prendeu um hacker, porque obviamente é um sujeito que tem uma inteligência mais sofisticada. Eu investiguei mais de 150 mil casos aqui no Núcleo ao longo de quase 15 anos e hackers, literalmente pessoas que podiam se enquandrar nessa configuração, não passaram de dez, é extremamente raro. O que nós estamos vendo hoje está acontecendo na internet comum, às vezes aparece um sujeito ou outro que é um programador, inventa algo como um sistema à parte de acesso mas isso daí é extremamente raro. Os nossos jovens, as pessoas que têm cometido crimes que eu assisto aqui têm utilizado a internet comum só que em perfis fechados, sem permitir acesso a todas as pessoas. É a internet comum que está carregando todo esse material. Uma coisa ou outra você vai encontrar na deep web mas é extremamente raro.
Tem alguma forma de os pais se precaverem ou saberem se os filhos estão acessando esse tipo de conteúdo na internet? Como podemos orientar os pais?
Esse é um ponto extremamente delicado de se tratar. Basicamente toda essa situação tem início a partir das ações de muitos adolescentes que impulsionam esse tipo de problema que estamos vendo agora, e muitas vezes em virtude do fato que os pais largam as tecnologias nas mãos dos filhos e não fazem nenhum tipo de acompanhamento. No momento que você começa a perceber que ele começa a esconder determinadas ações que pratica a partir do computador, de celular ou do tablet, começa a colocar senha nos equipamentos, quer dizer que alguma coisa já tem para esconder. Se chega em determinado momento que começa a acontecer um distanciamento - isso é importante que os pais estejam atentos -, que os filhos começam a sentir medo ou vergonha de mostrar aquilo que eles estão fazendo, já é um indicativo que está na hora de sentar e conversar olho no olho e literalmente colocá-los a par da responsabilidade que implica a utilização desse equipamento, do envolvimento em determinadas situações, da participação em grupos, comunidades, estimulando, participando, curtindo muitas vezes ou tecendo comentários. Esse diálogo tem que ser franco. Quando existe esse vínculo de confiança que você consegue literalmente trocar informações, dados e conversar sobre situações anômalas, incomuns, ainda há um relacionamento saudável em família. Mas se começa a acontecer um determinado distanciamento é hora de tentar resgatar essa aproximação e tentar conversar abertamente.
Muitas pessoas comentaram sobre os jovens de Suzano terem feito pesquisas na internet sobre armas e outros ataques similares no exterior. Existe um sistema no Brasil em que quando alguém faça esse tipo de busca reiteradamente, levante um alarme para as autoridades como forma de prevenir situações similares?
Não podemos esquecer nunca, as autoridades policiais têm que ter isso em mente, o (Poder) Judiciário, o Ministério Público, que a privacidade em si é uma garantia constitucional, o sigilo das comunicações é protegido constitucionalmente e só é feito o acesso a esse material mediante autorização judicial. Obviamente que a polícia não tem nenhum material dessa natureza que permita ter acesso, a menos é claro que alguém participe de um determinado serviço, de uma comunidade, de um determinado perfil de forma totalmente aberta, pública e permita que essa informação fique disponível. A partir do momento que ele coloca um bloqueio, uma trava, para que outras pessoas não possam ver, as autoridades também não enxergam e se forçarem a situação para terem acesso a esse tipo de informação, sem autorização judicial, a própria autoridade estará cometendo um crime. Perceba que de um lado nós temos interesse evidentemente em tentar descobrir mas nós também temos as nossas limitações legais que passam pelo crivo primariamente do próprio Ministério Público e do Poder Judiciário no sentido de anuir o acesso a informações que não estão disponibilizadas publicamente. O que disciplina esse controle, monitoramento e interceptações é a Lei 9296 de 1996. Lá percebe-se que sem autorização judicial, quem fizer esse tipo de prática de quebrar sigilo pode responder uma pena de reclusão de até quatro anos, seja uma autoridade policial ou qualquer um que se dizendo hacker diz que invadiu determinado espaço e conseguiu determinada informação que está protegida por um mecanismo de segurança. Uma senha comum já é um mecanismo de segurança.
Nesse momento em que estamos altamente preocupados com questões envolvendo ataques e coisas dessa natureza, precisamos contar com a colaboração de todos da população, de qualquer pessoa, de qualquer órgão, qualquer um que detecte situações anômalas no sentido de fazer contato com a polícia para que nós possamos iniciar pelo menos investigações no sentido de tentar detectar se há ou não probabilidade de que esse fato venha a se concretizar. Há muito tempo eu venho orientando nas minhas palestras e chamo a atenção para o caso de Tim Kretschmer (ataque de Winnenden, Alemanha - 2009) e da chacina do Realengo, onde o próprio jovem que cometeu os homicídios deixou uma mensagem dizendo que ele tinha outros irmãos no país afora que estariam prontos a qualquer momento para responder à altura agressões, bulling ou coisas dessa natureza. Eu chamo a atenção literalmente para que os pais e toda a sociedade estejam atentos e se puderem, contribuam com a polícia e órgãos de segurança pública no sentido de denunciar, de trazer ao nosso conhecimento para que possamos apurar. Esse é o nosso trabalho e estaremos prontos a atender e analisar essas comunicações no sentido de tentar prevenir e coibir ações dessa natureza.
Serviço: Contato com o Núcleo de Combate aos Ciber Crimes pode ser feito pelo telefone (41) 3321-1900 ou pelo e-mail [email protected]


