Especialistas das universidades norte-americanas e do México, reunidos em seminário realizado na capital mexicana, concluíram que a guerra mundial contra o tráfico de drogas, baseada no esquema de proibição liderado pelos Estados Unidos, está fracassando. Uma das participantes do encontro, Guadalupe González, da Universidade de San Diego, Califórnia, destacou o paradoxo segundo o qual ‘‘depois de 90 anos de proibição e de aplicação de controles para a redução da oferta, não ocorreu nenhuma retração do mercado internacional’’. No seminário internacional organizado pelo Centro de Pesquisa e Docência Econômica (CIDE), González destacou que desde a Conferência sobre o Ópio, em Xangai, ‘‘a resposta internacional dos países vem sendo a ampliação e a intensificação das ações que já existem e não uma revisão ou reforma substancial das políticas mundiais de controle de drogas’’. Acrescentou que o paradoxo é maior porque essa guerra tem ‘‘enormes efeitos contraproducentes, como a criação de novas zonas de cultivo, novas rotas do tráfico, organizações criminosas mais competitivas, escalada de violência, corrupção endêmica, militarização, violações dos direitos humanos, erosão institucional e sobrecarga da Justiça’’.
É preocupante esta constatação, até porque o tráfico de drogas constitui, atualmente, o mais sério desafio à sociedade organizada. O montante em dinheiro movimentado pela droga representa por si um perigo real. Um dos participantes do citado encontro, o australiano Peter Reuter, atualmente trabalhando na Universidade de Miami, não concordou com a cifra de US$ 400 bilhões que seriam gerados anualmente com o tráfico de drogas no mundo. Ele acredita que o total está entre US$ 120 bilhões e US$ 150 bilhões, dos quais US$ 60 bilhões são negociados nos Estados Unidos, correspondendo a quase 50%. Embora essa projeção seja bem inferior à que se fazia antes, ainda assim representa um valor elevado, capaz de produzir excelentes resultados para corromper não apenas organismos policiais, mas até os meios judiciais em muitos países do mundo. Não se pode também descartar o outro elemento de pressão usado pelo crime - a violência - que complementa a ação dos marginais. Ainda há idealistas e pessoas incorruptíveis neste mundo. Mas poucas resistem quando a brutalidade criminal ameaça principalmente seus entes queridos.
O que continua a ser vital na análise da questão é a percepção de que a sociedade civilizada não pode admitir a derrota diante desse desafio. O fato de a conclusão do seminário realizado no México indicar o fracasso na luta que vem sendo desenvolvida contra o tráfico, apenas revela a necessidade de mudanças na forma como as autoridades mundiais estão enfocando o assunto. Há equívocos, mas salta aos olhos que se não houver um trabalho mundial conjunto, envolvendo as polícias e a Justiça de todo o planeta, não haverá como mudar essa situação. E, naturalmente, o fracasso diante disso implica no reconhecimento de que a civilização, como o ser humano a concebeu, está em xeque.
O que se reclama é um trabalho mais intenso, uma união plena dos organismos policiais e jurídicos em todos os países do mundo, inclusive com mudanças legislativas que permitam maior mobilidade e agilidade na ação preventiva e repressiva. Os marginais levam vantagem, neste como em qualquer outro campo, porque não são limitados pela ética, pela Justiça, pelas fronteiras. Inegavelmente, os países civilizados não podem adotar normas ilegais para enfrentar o desafio. Entretanto, desde que haja um trabalho conjunto, iniciando-se com uma adequação legislativa que permita ação verdadeiramente global, é possível enfrentar melhor o desafio. Continua a ser uma questão de vontade e coragem da sociedade organizada.

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