DESAFIO DA TERCEIRA IDADE
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2002
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Vive-se por muito mais tempo e isso é bom, na perspectiva de quem é jovem e vê à frente um caminho mais longo para executar seus projetos de vida. Contudo, pode não ser assim tão bom para quem já atravessou ou está para atravessar o limiar dos 60 anos, considerado, nos países em desenvolvimento, a fronteira meridional para o ''mundo'' da terceira idade. Nos países ricos, esse limite mínimo só é traçado a partir dos 65 anos.
São muitas as razões para o desconforto de quem já chegou lá, destacando-se um grande preconceito, não só da sociedade em relação ao idoso, como do idoso em relação a si mesmo. ''Carta fora do baralho'', ''pendurar as chuteiras'', ''peso morto'' são algumas das expressões que revelam como se associa o processo de envelhecimento a uma gradual marginalização da vida ativa, da possibilidade e do desejo inerente a todo ser humano , de se manter integrado à sociedade em que vive.
Mas há que se pensar muito sobre isso, e depressa, porque a longevidade humana é um fato. Em 1950, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial com mais de 60 anos somava 200 milhões de pessoas. Em 1975, chegava a 350 milhões e, em 2000, alcançava o patamar dos 590 milhões, registrando, nos últimos 25 anos, uma taxa de crescimento de 224%. Uma enormidade, em termos proporcionais, se comparada à taxa de crescimento da população do planeta, de 102%, que contabilizou, no mesmo período, um salto de 4,1 bilhões para 8,2 bilhões de pessoas.
Entre outros fatores, deve-se esse aumento vertiginoso da população idosa ao avanço do conhecimento humano em todas as áreas, o que permitiu, particularmente após a segunda guerra mundial, um melhoramento significativo da qualidade de vida em geral. Na área médica, em especial, conquistou-se mais precisão nos diagnósticos e na cura de doenças até então consideradas fatais e começou-se a valorizar a idéia da prevenção. Por outro lado, reduziram-se as taxas de natalidade em todo o mundo e caíram também as de mortalidade infantil, reequilibrando a balança da expansão demográfica em outro nível.
O homem ganha mais tempo a cada dia. Por isso, em 2025, de acordo com estimativas da ONU, o número de idosos no planeta ultrapassará 1,1 bilhão. Três quartos desse total estarão em países em desenvolvimento, 32 milhões só no Brasil, que, assim, passará da décima-sexta posição, entre os países atualmente com maior população da terceira idade, para a sexta colocação.
Hoje, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 14,5 milhões de pessoas com mais de 60 anos no país. Embora a expectativa de vida do brasileiro gire hoje em torno dos 68 anos, o levantamento do IBGE constatou que a faixa de população de idosos que mais cresceu, proporcionalmente, foi a de 75 anos ou mais. Em 1991, eram 2,4 milhões e, atualmente, somam 3,6 milhões. Outro dado curioso, registrado pela pesquisa, é que as mulheres vivem por mais tempo 72,6 anos, em média , em contrapartida aos homens, com média de 64,8 anos. Isso se deve, especialmente, à alta taxa de mortalidade de homens jovens, entre 20 e 25 anos, por causas como acidentes e homicídios, numa proporção três vezes maior do que mulheres na mesma faixa etária.
Como consequência natural, há mais mulheres idosas do que homens idosos 81,6 homens para cada 100 mulheres, segundo o IBGE. E há mais mulheres idosas vivendo sozinhas. Da população de 1,6 milhão de idosos nessa situação, apenas 33% são homens. Elas vivem mais tempo e não são tão dependentes de outras pessoas quanto os homens. Eles, por sua vez, dificilmente ficam sozinhos, preferindo casar-se de novo ou morar com filhos ou outros parentes.
O mundo está ficando de cabelos brancos. Que eles não se tornem também arrepiados frente ao desafio representado pelo avanço da terceira idade, que implica, entre outros problemas de difícil solução, proporcionar a essa mais longa vida a merecida dignidade.


