Não é de agora que o acúmulo de queixas contra mau desempenho profissional, atingindo carreiras de nível superior, vem suscitando protestos do público e mesmo de entidades representativas de algumas dessas profissões. Nem poderia ser diferente diante dos efeitos desse mau desempenho sobre a sociedade e do que se pode considerar como resultado da lei do retorno, ou seja, o reflexo da insatisfação da sociedade sobre o conceito e a imagem da categoria.
Uma coisa, porém, é a consciência dessa realidade e a noção, já cristalizada, de que na raiz dessa anomalia estão as deficiências na fase de formação; e outra, bem diferente, é a possibilidade de se promover uma saudável convergência de vontades para a mudança dessa realidade.
Na insuspeitada avaliação do dr. Adib Jatene, alguns cursos criados em São Paulo tornaram-se verdadeiras fábricas de diplomas. Quanto aos advogados, o rigor nos chamados exames de Ordem aumentou, segundo consta, depois que a OAB federal revelou a existência de 100 mil inscritos, número que torna inevitável, segundo seus dirigentes, a chegada ao mercado de grande número de profissionais despreparados.
O Conselho Federal de Enfermagem considera a criação de novas escolas e cursos fenômeno normal, tendo-se em conta as exigências do mercado e crescimento da demanda. O que não é normal é a forma indiscriminada como eles proliferam, avançando por todas as áreas, inclusive a da Enfermagem. Não nos posicionamos contra a criação de escolas, mas somos favoráveis e lutamos para que sejam definidas metodologias mais rígidas para sua abertura e adotados critérios mais severos e uniformes para seu funcionamento. É preciso acompanhar o nível de ensino e aferir, pelo exame de qualificação, o produto dessas escolas, que antes de mais nada deveriam ser adequadamente classificadas pelo MEC.
Nos Estados Unidos, desde o início do século, modificações radicais na área de Saúde atingiram dramaticamente o sistema de ensino, cuja qualidade melhorou de tal forma que hoje esse sistema é reconhecido e respeitado nos meios educacionais e científicos de todo o mundo. No Brasil precisamos de políticas que levem a resultados capazes de prover as necessidades do País na dupla frente da qualidade e da quantidade, resguardada, nesse elogiável empenho, a dignidade da cada segmento profissional.
Não se trata, ao contrário do que muitos imaginam, de um desafio intransponível. A resposta para esse desafio atende por um nome genérico bastante conhecido de todos: qualificação profissional. E depende, obviamente, de doses mais potentes de discernimento e determinação política da parte do Poder Público.
GILBERTO LINHARES é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN

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