Desafio da escola - Wander Soares
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de janeiro de 1998
Wander Soares 
Quando se fala em resolver o problema da educação, não se pode pensar que a solução é simplesmente colocar mais de 2,7 milhões de crianças na escola, como prevê o programa do governo. A questão é muito mais ampla, conforme ilustram alguns dados da Organização para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), que classifica o ensino brasileiro como um dos mais deficientes do mundo. O analfabetismo atinge 19,6% dos brasileiros acima de sete anos; 20 milhões de brasileiros com mais de 14 anos são analfabetos; 50 milhões de adultos não passaram da primeira série do primeiro grau, sendo classificados como analfabetos funcionais; 10 milhões de crianças entre três e seis anos - num universo de 14 milhões - não frequentam a pré-escola e, de cada 100 crianças matriculadas no primeiro grau, somente 33 concluem a oitava série.
Há, entretando, dados que ampliam as dimensões do problema. A média de escolaridade no Brasil - 4,5 anos por pessoa - é de causar vergonha, especialmente se comparada com a de outros países considerados igualmente emergentes: Chile (7,5), Argentina (8,7) e Coréia do Sul (9,3).
Diante desta realidade inquestionável, fica muito claro que o Brasil tratou o ensino com extremo descaso ao longo desta segunda metade do século. Resgatar esse erro histórico é uma responsabilidade vital da nação, que extrapola as metas governamentais e exige recursos financeiros infinitamente superiores aos disponibilizados pela capacidade de investimento do combalido orçamento da educação.
O cumprimento de um objetivo de tamanha envergadura passa, necessariamente, pelo engajamento da iniciativa privada, entidades de classe e sociedade civil organizada, pressupondo-se, assim, um processo amplo de mobilização. Diante disso, é preocupante o fato de se subestimar a dimensão do problema e de numerosos líderes empresariais colocarem como meta única do ensino a formação de recursos humanos para o comércio, indústria, agricultura e serviços.
A meta governamental está aquém da realidade. O discurso empresarial é politicamente incorreto. A educação é um dos itens mais incisivos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, cujos princípios foram encampados pelas constituições da maioria dos países, inclusive o Brasil. Assim, supor que o ensino se limite, única e exclusivamente, à escolaridade básica ou ao atendimento da demanda de recursos humanos qualificados é uma simplificação inaceitável. O ideal filosófico de que a educação é o meio de levar o ser humano à busca da perfeição não pode ser ignorado.
De fato, o ensino tem um valor econômico passível de ser mensurado. Não é desprovida de sentido a relação entre progresso econômico e níveis de educação. Já se tornou clássico o exemplo do Japão, que, proibido pelas cláusulas de rendição na Segunda Guerra Mundial de ter exército e de produzir armas, canalizou toda a sua potencialidade para educar o povo. O resultado é o que se vê. Hoje, o país tem um PIB superior a US$ (?), o segundo maior do Planeta.
O planejamento do desenvolvimento econômico e social é inseparável do educacional. Não há como elaborá-los isoladamente. O ensino não é apenas um meio para suprir as empresas com mão-de-obra qualificada. É um fim específico, um direito intrínseco à cidadania, que, ao ser atendido, contribui automaticamente para o desenvolvimento.
Se o objetivo do desenvolvimento socioeconômico é uma vida mais digna e justa para todos os que buscam participar das oportunidades derivadas das potencialidades do país, evidencia-se a necessidade de se ordenar e acelerar o acesso à educação. Embora até pouco tempo atrás fosse considerado um investimento social de muito longa maturação, o ensino - na projeção do Brasil para o Século XXI - tem de assumir o status de verdadeira operação de guerra, na qual deveremos todos nos envolver para que os resultados possam ser sentidos no curto prazo. Vencer o desafio da educação é a fronteira mais decisiva que o país deverá transpor para ingressar no Primeiro Mundo.


