Desafiando os pré-candidatos
Convenhamos que os pré-candidatos Lula da Silva, Roseana Sarney, José Serra, Anthony Garotinho, Ciro Gomes e Itamar Franco sejam bem intencionados e estejam habilitados a pleitear o cargo de presidente da República. Se querem passar no vestibular eleitoral, eles terão de responder duas questões que, seguramente, ocuparão o centro do discurso político nas eleições de outubro próximo. Primeira: como equilibrar receita e despesa, mantendo a estabilidade da moeda, promovendo o crescimento econômico e o pleno emprego, reforçando os programas sociais e melhorando o desempenho das instituições sociais e políticas? Segunda: como debelar ou atenuar a criminalidade no país, que assume proporções catastróficas, diminuindo a violência nos grandes centros e assegurando a implantação de um programa sólido de segurança?
A primeira pergunta abriga o desafio principal das administrações, particularmente no âmbito das experiências latino-americanas, onde os governantes tendem a adotar políticas populistas, que rendem frutos apenas imediatos, comprometendo os horizontes futuros. A resposta à questão implica manejar, de maneira adequada, os três cintos de governo: o político, o macroeconômico e o dos serviços públicos. O candidato dirá como vai garantir a governabilidade, dar respostas às demandas políticas, fazer girar o motor do desenvolvimento, sem impor sacrifícios econômicos à população, e ainda melhorar a infra-estrutura de amparo social.
A segunda questão é imperiosa e urgente, ante a comoção nacional que tomou conta do país, com o assassinato bárbaro do prefeito Celso Daniel. São assassinadas no país, por ano, cerca de 40 mil pessoas, quantidade maior que a das vítimas das guerras contemporâneas. A indústria do sequestro já insere o país no quarto lugar do mundo nessa espécie de crime. No campo dos homicídios, com 24 assassinados por 100 mil habitantes, o Brasil só perde para a Colômbia, onde o índice chega aos 78 mortos. E, entre nós, o verbo da promessa caiu no vazio e no descrédito. As respostas dos candidatos deverão evitar a trapaça ou o sofisma. Terão de demonstrar a exequibilidade das propostas, os custos, o tempo, as populações atingidas. Os programas cairão no descrédito, caso seus efeitos ultrapassem o tempo além do horizonte de quatro anos, o espaço do mandato. A população clama por soluções imediatas. Urge acabar com a cultura de empurrar com a barriga.
Na área macroeconômica, se o PT quer mudar o modelo, há de esclarecer muito bem como vai implantar um sistema capaz de garantir as conquistas do Plano Real e, ao mesmo tempo, proporcionar melhor distribuição da riqueza nacional. Roseana não poderá discriminar São Paulo, apenas porque este é o carro-chefe da Federação, que agrega o maior ajuntamento industrial, de comércio e de serviços do país, o maior PIB. Qualquer programa para o Brasil passa, necessariamente, pelas demandas de um Estado que abarca 24 milhões de eleitores. É preciso, ainda, ter cuidado com o marketing de ênfase ao gênero feminino. Mulher não é fator racional de campanha. É apelo emotivo. José Serra há de demonstrar ser possível baixar juros, sem diminuir o fluxo de capitais internacionais ou comprometer a política tributária e o programa de ajuste fiscal da administração. Mais do que outros, pois faz parte do núcleo central do Governo, cabe-lhe desfazer as amarras que prendem o Executivo numa fechada engrenagem monetarista, cuja imagem é a de um monstro voraz que engoliu, em 2001, uma carga tributária de 33,72% do PIB.
Ciro Gomes desmonta as idéias que expressa, consideradas de boa definição, com a força do estilo desequilibrado. Tem contra ele a voz da Escritura: a boca do insensato fere-o a ele mesmo: e os seus lábios são a ruína de sua alma. Garotinho há de distinguir oração religiosa de discurso de palanque. E o refrão povo em primeiro lugar, que ilustra sua propaganda na mídia, é tão batido e gasto como bigorna de ferreiro. De Itamar, se for candidato, espera-se que seu conhecido viés nacionalista não seja usado para derrubar as fronteiras da inserção internacional do país ou fazer meia volta em direção ao passado. Se os pré-candidatos querem levar a sério a contenda, que façam a lição de casa. O desafio está lançado.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor universitário em São Paulo





